São Paulo

O que há de concreto nas acusações contra Ricardo Nunes, candidato a vice de Covas

Candidatura do atual prefeito está em queda nas pesquisas de intenção de voto; vice é um dos alvos preferenciais

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |

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Nunes é alvo de inquérito que apura indícios de superfaturamento no aluguel de creches privadas pela prefeitura - Reprodução / Facebook

O candidato a vice-prefeito de São Paulo (SP), Ricardo Nunes (MDB), é um dos principais alvos dos opositores de Bruno Covas (PSDB) no 2º turno das eleições municipais. Há pelo menos um mês, as redes sociais foram inundadas por acusações e críticas ao empresário, advogado e vereador desde 2013.

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As atenções voltadas ao vice se justificam. Atual prefeito, Covas enfrenta um câncer no aparelho digestivo. Embora a doença esteja controlada, não há previsão de cura, e é possível que ele precise se afastar em alguma etapa do tratamento imunológico – a exemplo de outros políticos que enfrentaram doenças graves, como seu avô, o ex-governador Mário Covas, também do PSDB, falecido de câncer em 2001 aos 70 anos.

Outro ponto de preocupação é o histórico de abandono do cargo por ex-prefeitos do PSDB em São Paulo. Os dois outros tucanos que administraram o município, José Serra e João Doria, interromperam o mandato para concorrer ao governo do estado, em 2006 e 2018, respectivamente.

Às vésperas do 2º turno das eleições municipais, o Brasil de Fato reuniu as três principais menções negativas a Nunes nas redes e apresenta o que há de concreto, para além dos boatos e especulações.

Corrupção

Embora venda a imagem de “fiscal do dinheiro público” e defenda o “combate à corrupção”, Nunes é alvo de uma investigação da promotoria do Patrimônio Público e Social do Ministério Público do Estado de São Paulo que apura indícios de superfaturamento no aluguel de creches privadas que mantêm convênio com a prefeitura.

Segundo a promotoria, Nunes teria sido favorecido por meio de sua relação com a Sociedade Beneficente Equilíbrio de Interlagos (Sobei), que recebe da prefeitura R$ 329 mil por mês para pagamentos de aluguéis de creches. O vereador nega participação no caso e diz ser apenas “voluntário” da instituição.

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Covas posa ao lado do companheiro de chapa, Nunes, em frente a uma mesa repleta de objetos religiosos / Reprodução / Facebook

Outro caso de favorecimento que veio à tona durante a campanha foi o repasse de R$ 50 mil sem licitação à empresa Nikkey para dedetização de creches. A empresa foi fundada por Nunes em 1997 e tem como sócias a esposa e a filha dele.

As oito creches dedetizadas são controladas pela Associação Amigos da Criança e do Adolescente (Acria). A presidenta da instituição é Eliana Targino, ex-funcionária de Nunes, e o vice-presidente da Acria é José Cleanto Martins, pai de uma assessora do vereador, segundo o jornal Folha de S. Paulo.

Ao jornal, o vereador negou o favorecimento e alegou que os valores cobrados estavam “abaixo dos de mercado”, como “uma forma de ajudar as creches”. Ele também nega que a Acria seja dirigida por aliados.

Ricardo Nunes declarou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) um patrimônio de R$ 4,8 milhões, entre imóveis e aplicações financeiras. Em 2016, ele investiu R$ 450 mil na própria campanha e se reelegeu vereador.

Radicalismo de direita

Fotos com padres, ajoelhado dentro de templos, prostrado diante de imagens católicas: a cada dez postagens nas redes sociais de Nunes, ao menos três contêm menções à religião. O vice de Covas é conservador, ligado à ala carismática da igreja católica e integra a bancada da Bíblia na Câmara Municipal de São Paulo.


Nunes compõe a bancada da Bíblia na Câmara Municipal de São Paulo / Reprodução / Facebook

O vereador, que atuou junto à prefeitura para garantir que músicas cristãs fossem tocadas em espaços públicos e eventos como a Virada Cultural, assume uma postura radical contra a educação para a igualdade de gênero.

Essa é uma das principais críticas ao candidato a vice. Apoiador do projeto “Escola Sem Partido”, que pretendia censurar os professores e limitar sua autonomia, Nunes defendeu em plenário a retirada do termo “gênero” do Plano Municipal de Educação (PME). A palavra aparecia oito vezes no texto, sempre no sentido de estimular o debate e a tolerância sobre a diversidade.

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O PME é o documento que estabelece metas e diretrizes para a educação de crianças com até 14 anos. Nunes argumenta que a “ideologia de gênero” – expressão inventada pela extrema direita para impedir o avanço de debates sobre diretos da população LGBTQIA+ – é “uma coisa nefasta” e visa à destruição da “família tradicional brasileira”.

“Não cabe ao estado, e sim à família, construir os valores que a criança terá”, disse à época.

Especialistas no tema, por outro lado, apontam que a educação de gênero na escola coíbe a discriminação da população LGBTQIA+ e previne feminicídios.

Violência doméstica

A esposa de Ricardo Nunes, Regina Carnovale, denunciou o marido por violência doméstica em 18 de fevereiro de 2011. O Boletim de Ocorrência (BO) foi registrado na 6ª Delegacia da Mulher, em Santo Amaro, zona sul da capital.

Carnovale relatou, à época, que o casal mantivera uma união estável por 12 anos. Sete meses antes da agressão, os dois se separaram “devido ao ciúme excessivo” de Nunes.

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“Inconformado com a separação, [Nunes] não lhe dá paz, vem efetuando ligações, proferindo ameaças, envia mensagens ameaçadoras todos os dias e vai em sua casa, onde faz escândalos e a ofende com palavrões”, diz o boletim.

Segundo o jornal Folha de S. Paulo, Carnovale foi às redes sociais em 2015 para questionar o não pagamento de pensão alimentícia à filha. Nas postagens, ela chamou Nunes de “bandido” e “crápula” e disse ter prova das agressões. “Ele sempre me bateu”, relatou.

O casal reatou o relacionamento meses depois. Questionada, a mulher diz que sua conta foi “hackeada” [invadida].

Nenhuma das denúncias avançou e virou processo judicial. O vereador nega as agressões e diz que o BO foi feito em um período em que esposa estava “emocionalmente abalada”.


Ricardo Nunes declarou ao TSE um patrimônio de R$ 4,8 milhões, entre imóveis e aplicações financeiras / André Bueno / Câmara Municipal de São Paulo

Covas foi perguntado sobre o tema ao menos duas vezes durante a campanha, e adotou tons diferentes nas respostas.

Em 16 de outubro, durante o 1º turno, o atual prefeito disse que “é inaceitável violência contra mulher” e que Nunes devia esclarecimentos sobre o caso. Na última segunda-feira (23), durante o programa Roda Viva, da TV Cultura, Covas minimizou o episódio.

"Não há uma denúncia sequer de agressão envolvendo o vereador Ricardo Nunes. Dez anos atrás, teve um desentendimento dele com a Regina, sua esposa, que continua como esposa”, afirmou. “Transformaram ele num agressor”.

A chapa Covas-Nunes lidera as pesquisas de intenção de voto, mas está em queda. A cinco dias do 2º turno, o candidato Guilherme Boulos (PSOL), que tem como vice Luiza Erundina (PSOL), subiu de 42% para 45% das intenções de votos – a preferência pelo atual prefeito caiu de 58% para 55% entre os dias 17 e 23 de novembro, segundo o Instituto data Folha.

O Brasil de Fato convidou Ricardo Nunes para uma entrevista, mas a assessoria de comunicação alegou não ser possível encaixar o compromisso na agenda do candidato.

Edição: Rogério Jordão