Entrevista

Plasma sanguíneo contra covid tem resultados "alentadores" na Venezuela, diz médico

Coordenador das pesquisas, Gregório Sánchez falou ao Brasil de Fato sobre como o tratamento tem sido desenvolvido

Caracas (Venezuela) |

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Gregorio Sánchez é o coordenador das pesquisas na Venezuela sobre uso de plasma sanguíneo para tratar a covid-19 - Mincyt

A Venezuela é uma das pioneiras na região no estudo e uso de plasma sanguíneo de pacientes recuperados da covid-19 para tratar pessoas ainda infectadas com a doença. Com 62.655 contaminados, 502 falecidos, o país mantem uma taxa de recuperação de 80% dos casos, com mais de 50 mil pacientes que tiveram alta médica, segundo dados oficiais.

"A eficácia dos estudos e observações até o momento são alentadores e levam à aplicação logo no início do tratamento em casos moderados e graves para ter maior efetividade. Os registros e estudos são necessários e, com protocolo, faremos as contribuições possíveis", explicou o médico Gregório Sánchez Salamé em entrevista ao Brasil de Fato. 

Especialista em medicina tropical e doenças infecciosas, Salamé preside o Instituto Quimbiotec, responsável pelas pesquisas que levaram a Venezuela a adotar o plasma sanguíneo como uma das alternativas para tratar cidadãos infectados com o novo coronavírus.

Ele aponta que o sucesso no controle da pandemia e na atenção aos doentes venezuelanos foi possível por meio da cooperação internacional com países como China, Rússia, Irã e Turquia.

O envio constante de ajuda humanitária por parte dessas nações possibilitou a aplicação de testes rápidos de maneira massiva, chegando a um total de 1.864.663 milhão, uma média de 62 mil provas a cada milhão de habitantes. Além disso, a cooperação científica com os chineses e os cubanos possibilitou o desenvolvimento de novas respostas imunológicas. 

"Logicamente na China foi onde começou a ser documentado o uso de plasma de convalescente para tratar a covid-19 e eles comentaram sua experiência durante a visita que realizaram à Venezuela, pouco depois que foram registrados os primeiros casos", conta o presidente do Instituto Quimbiotec.

Diante dos resultados, o Estado venezuelano procurou o governo brasileiro para oferecer cooperação no combate à pandemia. No entanto, o chamado nunca foi respondido pelo Itamaraty.

Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato: Primeiro, queria que você comentasse como funciona o tratamento com plasma sanguíneo: como se identifica que foram gerados anticorpos contra a covid-19? Quantos litros são coletados? Há efeitos colaterais?

Gregório Sánchez: A captação de doadores de plasma convalescente é um processo que se fundamenta na decisão autônoma e voluntária do paciente recuperado de covid-19. Pode começar a partir do momento que o paciente ainda está doente, no hospital, na clínica ou no Centro de Diagnóstico Integral [postos de saúde] e, ao momento do seu regresso, ele é motivados pelo pessoal médico para que atenda ao chamado de doação.

Uma vez recuperado, uma semana depois da alta médica, o paciente pode se comunicar conosco pelo 0800 plasma ou por nosso e-mail.Aí começa uma série de contatos, primeiro telefônico e em seguida presencial para que os profissionais de saúde para definir se o voluntário reúne os critérios necessários para a doação de plasma. São eles: paciente que teve a doença confirmada com prova PCR, já tenham passado 10 dias da sua alta médica, homens entre 18 e 60 anos ou mulheres que não engravidaram e pessoas sem outras doenças que impeçam a doação.

O tratamento com plasma convalescente é complementar, coadjuvante, soma-se ao esquema terapêutico que deve ser decidido pela equipe médica em cada caso clínico particular.

A doação de sangue está prevista no nosso marco constitucional como um ato voluntário e gratuito, como expressão de valores. Esses valores devem ser promovidos como a base da sociedade que somos e queremos ser

Reunindo todos esses critérios passaríamos às consultas para realizar todos os exames necessários para verificar a presença de anticorpos contra o vírus Sars-Cov2 através de provas de diagnóstico rápido para determinar a presença da imunoglobulina G, vemos qual o tipo de sangue e realizamos todos os exames para detectar outras doenças transmissíveis pelo sangue.

Se o resultado é satisfatório, fazemos a coleta de cerca de 800 mm de plasma, um procedimento que não é doloroso, não debilita e dura cerca de uma hora. É feito nos bancos de sangue, hospitais e centro qualificados.

O protocolo que elaboramos estabelece a transfusão de um volume aproximado de 300 mm em uma única aplicação em pacientes com estados moderados ou graves de doença, pacientes que são avaliados por especialistas que decidem sobre a transfusão. O tratamento com plasma convalescente é complementar, coadjuvante, soma-se ao esquema terapêutico que deve ser decidido pela equipe médica em cada caso clínico particular.

E qual a efetividade do tratamento? Já existe alguma comprovação?

Há evidências na literatura sobre a segurança do plasma convalescente nas diferentes doenças em que foi utilizado. No caso particular da covid-19 existem estudos nos Estados Unidos, Itália e China que conferem segurança. A eficácia dos estudos e observações até o momento são alentadores e levam à aplicação logo no início do tratamento em casos moderados e graves para ter maior efetividade. Os registros e estudos são necessários e, com protocolo, faremos as contribuições possíveis.

Como tem sido a resposta à campanha nacional de doação de plasma?

A doação de sangue está prevista no nosso marco constitucional como um ato voluntário e gratuito, como expressão de valores. Esses valores devem ser promovidos como a base da sociedade que somos e queremos ser. É um processo social que devemos seguir construindo. Temos que fortalecer mais e mais a cultura de doação voluntária e gratuita de sangue e de plasma para este momento difícil e para qualquer outro.

O sangue e seus derivados são medicamentos muito necessários ao sistema de saúde. Essa pouca cultura de doação ainda prevalece na Venezuela e se soma ao fato de que as pessoas não querem ser identificadas como casos de covid-19 por temor ao rechaço. Este estigma devemos compreender e modificá-lo.

São pessoas recuperadas, vitoriosas que podem dar um exemplo de solidariedade e altruísmo, que não deveriam sentir vergonha, pelo contrário, deveriam orgulhar-se, pois são vitoriosos e generosos com seus semelhantes ao doar.

À medida que aumentam a incidência de casos, há mais doadores potenciais motivados e motiváveis por campanhas públicas. É um processo lento e progressivo que estamos acompanhando e aperfeiçoando com uma afluência escassa, mas crescente.

Para isso também precisamos preparar mais bancos de sangue no país. Até agora a experiência se desenvolve apenas nas cidades de Caracas e Maracaibo.

Estamos vivendo essa conjuntura [de pandemia] como venezuelanos do ano 2020, isso requer união e solidariedade. A doação voluntária de plasma é uma expressão disso.

 


Vice-presidenta Delcy Rodríguez recebe ajuda humanitária da China no aeroporto internacional Simón Bolívar; FMI negou apoio / VTV

 

Os estudos de tratamento para covid-19 com plasma sanguíneo começaram na China. Chegaram à Venezuela através do laboratório Quimbiotec ou já haviam sido estudados antes?

Logicamente na China foi onde começou a ser documentado o uso de plasma de convalescente para tratar a covid-19 e eles comentaram sua experiência durante a visita que realizaram à Venezuela, pouco depois que foram registrados os primeiros casos.

Tomamos as ideias iniciais para criar um protocolo venezuelano a partir dos chineses e das experiências que foram registradas em outros países. Foram as duas instituições: o Banco Municipal de Sangue do Distrito Capital e Quimbiotec que tiveram a iniciativa.

Quimbiotec é um complexo tecnológico e farmacêutico do Estado venezuelano, dedicado há mais de 30 anos à produção de medicamentos derivados do sangue e de fármacos recombinantes. Já o Banco Municipal de Sangue também é uma instituição de referência.

Consequentes com a história, as equipes das suas instituições se reuniram com acompanhamento do Comitê Terapêutico do Ministério de Saúde e do Conselho Presidencial de Ciência.

Quais as vantagens desse tratamento alternativo? Quantas pessoas estudam este tratamento? Existem outras alternativas sendo investigadas?

O uso de plasma de convalescente está bem documentado na história para doenças infecciosas novas, emergentes. Mais de um século de experiências registradas em doenças como influenza, febres hemorrágicas, ebola e outras enfermidades produzidas por coronavírus como a MERS e a SARS.

Também são estudos que fazem parte das linhas prioritárias do Ministério de Saúde e de Ciência e Tecnologia, numa resolução conjunta para promover e orientar a investigação e inovação necessárias para lutar contra a pandemia na Venezuela.

São mais de 12 profissionais e, à medida que o protocolo se executa, somam-se mais profissionais. É um trabalho coletivo.

O protocolo recebeu apoio do Conselho Presidencial de Ciência, do Ministério de Ciência e Tecnologia que abriu portas e se vinculou em outros projetos como o estudo da resposta imune humoral e celular, desenvolvendo provas de sorologia e alternativas para o diagnóstico, inovações na terapia baseada no uso da gamaglobulina hiper imune a partir do plasma humano ou produzidas por equinos, para mencionar algumas.

 

Os recursos para desenvolver essas pesquisas vem do Estado venezuelano ou existe outro investidor?

A Constituição da República Bolivariana da Venezuela consagra a saúde como um direito social e, portanto, responsabilidade do Estado. A luta contra a pandemia faz parte desses princípios e das políticas de proteção social integral, com medidas econômicas e sociais, que incluem a resposta sanitária.

O diagnóstico e os medicamentos do esquema terapêutico são oferecidos, incluído o uso do plasma, são previstos de maneira gratuita e universal ao sistema de saúde, nos seus estabelecimentos públicos e também nos privados.

Como explicar que a Venezuela, um país bloqueado economicamente, posa oferecer medicamentos gratuitos aos infectados e que ainda estuda tratamentos alternativos para tratar a infecção gerada pelo novo coronavírus?

Somos um país sob assédio, bloqueados econômica, comercial e financeiramente por medidas coercitivas promovidas pelo governo estadunidense e seus aliados em Europa.

Estamos no centro da geopolítica. Não estamos sós na luta pela independência plena, soberania e um mundo multipolar.

Com o apoio valente e solidário de países como Cuba, China, Rússia, Irã, Turquia e com a determinação do governo legítimo, que democraticamente elegemos nós venezuelanos e venezuelanas, vamos adiante, apesar dessa circunstância que particularmente estamos vivendo de pandemia e sob assédio imperialista.

 

 

 

Edição: Leandro Melito