entrevista

'Privatização é uma decisão política, assim como luta contra a privatização', diz sindicalista do Metrô de SP

Para Narciso Soares, vice-presidente do Sindicato dos Metroviários, greve da última terça passou recado para a população

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |
Estações do Metrô de São Paulo ficaram fechadas na última terça-feira (3) - Paulo Pinto/Agência Brasil

"Uma disputa política de como deve ser gerido o transporte". Assim o vice-presidente do Sindicato dos Metroviários de São Paulo, Narciso Soares, avalia o embate entre o governo do estado, chefiado pelo bolsonarista Tarcísio de Freitas (Republicanos), e os trabalhadores dos serviços públicos de transporte em relação à proposta de privatização das empresas.

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Em entrevista ao Brasil de Fato, Soares reforça que o sindicato deseja ver um transporte verdadeiramente público, cuja gestão caiba aos trabalhadores dos serviços e também aos usuários que dependem da rede de trens, metrô e ônibus todos os dias.

"Não é uma discussão do cenário eleitoral, como ele tenta fazer, em relação às eleições do ano que vem, até porque nas próprias categorias tem gente que apoiou nas últimas eleições diversos candidatos, inclusive gente que apoiou o próprio Tarcísio e não tem nenhum acordo com a privatização", disse o sindicalista.

Confira abaixo a entrevista na íntegra.

Brasil de Fato: Como o sindicato avalia a greve de ontem [terça-feira, 3]? A categoria conseguiu passar o recado que esperava para a população?

Narciso Soares: A gente achou, sim, que a greve foi muito forte. Teve um ponto alto que foi a unidade dos sindicatos da Sabesp [Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo], Metrô e os sindicatos da CPTM [Companhia Paulista de Trens Metropolitanos], paralisamos em conjunto e isso deu uma força muito grande. Passamos o recado para a população: o Tarcísio está querendo destruir o transporte público e o saneamento básico, entregando para a iniciativa privada. Foi também um recado para o Tarcísio: a gente não vai aceitar essa situação dessa forma.

A gente está enfrentando, além do governo, diversos interesses dos grandes empresários. É algo que vem com muita força, com muitos interesses por trás. Para ter uma ideia, os donos da CCR [empresa proprietária da ViaMobilidade, que administra linhas já privatizadas nos trens e metrô de São Paulo] entraram nas listas dos bilionários brasileiros. Então são muitos interesses econômicos.

Tem a máquina do governo do estado aqui para fazer isso, e não só do governo do estado, infelizmente. O governo federal segue a mesma lógica, privatizando também os metrôs federais. Então é fundamental essa unidade, inclusive nossa ideia é chamar uma unidade ainda mais ampla com outros setores. Foi fundamental essa unidade pela demonstrar a força e a unificação dos interesses dos trabalhadores no sentido de não deixar a população passar esse sufoco.

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A greve foi uma das ações de uma campanha ampla de mobilização contra a privatização. Quais os próximos passos?

A greve foi um passo. A gente já vem fazendo um plebiscito popular, que é para envolver os movimentos e a população. A gente vai continuar fazendo esse plebiscito até o dia 5 de novembro. A gente está divulgando os postos de votação, todos os setores, movimentos, centrais, sindicatos, as organizações de bairro estão pegando urnas, levando e fazendo essa discussão com a população.

A gente está fazendo nas assembleias [legislativas], nas câmaras, debates e audiências públicas. A ideia é pressionar para que tenha um plebiscito oficial e que quem decida como vai ser gerido o transporte e o saneamento básico seja a população.

A gente deve fazer novos atos de mobilização nas cidades, talvez fazer uma plenária conjunta com todo o movimento dos serviços públicos de São Paulo, servidores e todo mundo que está relacionado com isso ou quer apoiar para preparar novos dias de paralisação. Talvez paralisações unificadas por tempo mais longo, 48 horas, 72 horas ou até por tempo indeterminado.

A Linha 9, privatizada, está com falhas desde o dia da greve. O que esse episódio revela a respeito do modelo privatista já implantado em algumas linhas e que, justamente, a mobilização de vocês busca contestar?

O episódio da linha 9 ontem [3]... Também teve falha na linha 8, mas a da linha 9 foi mais grave, inclusive porque não funcionou hoje [4] também, estava com problema ainda em decorrência da falha. Isso mostra a realidade dessas linhas depois de privatizadas, a 8 e 9, aumentaram em dez vezes o número de falhas, inclusive com algumas falhas bem absurdas, como descarrilamentos, que são falhas bem graves, dado o grau de degradação que eles fizeram com tudo isso [a privatização]. E isso se mostrou de forma categórica.

Tarcísio de Freitas, Ricardo Nunes [prefeito de São Paulo] e veículos da imprensa têm falado que a greve "é política", como maneira de desqualificar o movimento. Como vocês veem essa avaliação?

A privatização é uma decisão política, assim como a luta contra a privatização. Nesse ponto de vista, é uma disputa política de como deve ser gerido o transporte. A gente acha, na verdade, que o transporte deveria ser público, estatal e ter mais investimentos, inclusive para melhorar a qualidade, ampliar o transporte, assim como saneamento, e também reduzir a tarifa, rumo à tarifa zero. E ser gerido pelos trabalhadores dos setores e pelos usuários, os trabalhadores que utilizam [os serviços]. Essa deveria ser a lógica de funcionamento, é por isso que a gente briga: achamos que quem deve decidir isso são os trabalhadores da área, mas não só os que trabalham, também os que que utilizam esse serviço, que é fundamental.

Eles tentam desqualificar, falando que isso aqui é uma disputa por outros interesses que não a luta contra a privatização, que seria um ataque ao partido ou ao Tarcísio diretamente. Na prática a gente vem denunciando, inclusive, o oposto disso. Aqui, o metrô, o trem e a Sabesp são diretamente ligados ao Governo do Estado, então vai ser contra a política porque ele tá implementando, mas a gente, a categoria e o sindicato também luta, junto com outras categorias, contra as privatizações federais que o Lula está fazendo, que também é um absurdo, também é o mesmo ataque, assim como contra qualquer governo que fizer.

Não é uma discussão do cenário eleitoral, como ele tenta fazer, em relação às eleições do ano que vem, até porque nas próprias categorias tem gente que apoiou nas últimas eleições diversos candidatos, inclusive gente que apoiou o próprio Tarcísio e não tem nenhum acordo com a privatização. A gente não vai aceitar. Se ele [Tarcísio] quer realmente ouvir a população, a gente pede que ele faça um plebiscito oficial, uma discussão ampla, de verdade, sobre esse tema.

Como o sindicato deve proceder em relação às multas que foram aplicadas pela Justiça?

A nossa ideia é recorrer a tudo que que for possível, porque na prática o que a Justiça fez, a gente acha que é um entendimento que proíbe, na prática fazer greve. Inclusive entra num debate complicado. É da Constituição, os trabalhadores têm o direito de decretar greve pelo tema que acharem pertinente. E isso não tem nada a ver com o que já é uma conquista dos trabalhadores ao longo da história. A ideia é recorrer dessas multas. A gente acha que se tem um motivo para se fazer greve aqui, esse é um dos principais.

Edição: Thalita Pires