WikiLeaks

Assange está preso 'porque denunciou ao mundo a espionagem americana', diz Lula

Em Roma, presidente defende também direito dos migrantes: "o ser humano é nômade por natureza"

Botucatu (SP) |
Diante dos repórteres, Lula disse que Assange denunciou o que todo jornalista gostaria de denunciar se tivesse recebido a notícia das espionagens - Ricardo Stuckert/PR

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estava inspirado na entrevista coletiva dessa quinta-feira (22), em Roma, após visitar as principais lideranças da Itália e do Vaticano. Criticou países que gastam fortunas para fazer guerra, as utopias da direita, a violência de gênero, as condições europeias para firmar o acordo de livre-comércio com o Mercosul. Até contra o presidente do Banco Central, Campos Neto, Lula disparou sua indignação.

Depois que a entrevista foi encerrada, sob alegação de que a comitiva estava em cima da hora para embarcar para Paris, Lula permaneceu no púlpito. Olhou fixamente para os jornalistas e disse que gostaria de falar mais uma coisa.

“Eu ando um pouco indignado com os defensores da liberdade de imprensa no mundo”, afirmou o presidente. “A gente tem o (Julian) Assange preso na Inglaterra porque denunciou ao mundo a espionagem americana. Agora vai ser mandado de volta aos Estados Unidos para quem sabe pegar prisão perpétua e não vejo nenhuma manifestação da imprensa para defender a liberdade de imprensa. O nome disso é covardia, porque o que o Assange fez merece respeito de qualquer jornalista na face da Terra. Ele teve coragem de denunciar que os EUA faziam espionagem. Denunciou o que todo jornalista gostaria de denunciar se tivesse recebido a notícia como ele recebeu”.

Em 2010, o jornalista Julian Assange, fundador do Wikileaks, publicou aproximadamente 250 mil arquivos, entre fotos, vídeos e documentos do Pentágono, que revelavam crimes de guerra cometidos pelos militares estadunidenses e práticas de tortura contra detentos na prisão de Guantánamo, base militar dos Estados Unidos em Cuba. Há quatro anos, ele está preso em Londres, aguardando uma possível extradição para os Estados Unidos, onde pode ser condenado a uma pena de até 175 anos.


Stela Assange (centro), mulher de Julian, durante protesto em Londres em defesa do jornalista / Susannah Ireland / AFP - 11/2/2023

China versus EUA

Lula comentou também sobre o aumento das hostilidades entre China e Estados Unidos, as duas maiores economias do mundo. “Nós não queremos mais Guerra Fria, e também não queremos mais guerra. Por isso conversei com o presidente (Sergio Mattarella), com a primeira-ministra (Georgia Meloni), com o papa Francisco. E concordo com o papa: é preciso ter gente envolvida em discutir a questão da paz. Colocar os atores (Rússia e Ucrânia) numa mesa de negociação, parar de atirar e encontrar uma solução pacífica, porque o mundo tem 800 milhões de pessoas que vão dormir sem ter o que comer e não é justo se gastar bilhões de dólares ou de euros com uma guerra desnecessária”.

Esquerda europeia, utopia, migração

“Não posso analisar a esquerda italiana. Tenho mais capacidade de falar da esquerda europeia, que sofreu uma perda de discurso. Precisamos criar uma nova utopia para vencer a utopia criada pela direita, de que o Estado não vale nada, que precisa ser fraco, que só a iniciativa privada resolve os problemas. Precisamos construir outro discurso, ter coragem de defender o trânsito livre de seres humanos assim como se permite o trânsito livre de dinheiro, que circula pelos países sem mostrar passaporte. Precisamos de maturidade para defender os migrantes, as pessoas que fogem porque não têm como sobreviver. O ser humano é por natureza nômade, vive em busca do que comer, de trabalhar, das coisas melhores. Então se você tem centros de pobreza e violência do mundo, é normal que as pessoas queiram transitar de um lugar para o outro”.

Há uma extrema direita nascendo com um discurso muito centrado na questão dos costumes, da família, e muitas vezes a esquerda fica um pouco inibida. Precisamos defender com mais clareza as coisas em que acreditamos. A juventude precisa de uma utopia, um sonho pra gente continuar lutando por ele.

Meloni e sua ideologia de ultradireita

"Quando um chefe de Estado se encontra com outro, não está em jogo a questão ideológica. A mim não importa o posicionamento político dela. Ela defende os interesses do povo italiano, eu defendo os interesses do povo brasileiro e eu venho para discutir o que se pode fazer para que os dois países possam ganhar. A gente pode construir parceiras na área empresarial, científica e tecnológica, nossas universidades podem fazer parceira, e é assim que a gente conversa."

"Fiquei bem impressionado com a Georgia, uma jovem — ela tem 46 anos e Lula, 77. Ser a primeira mulher primeira-ministra da Itália num mundo ainda muito machista é uma novidade extraordinária, como foi a Dilma (Rousseff) em 2010 no Brasil. Agora, ele vai enfrentar muito preconceito porque a questão de gênero ainda pesa muito. Existe um crescimento de ódio contra as mulheres, desrespeito, violência. Mas senti que ela tem a cabeça no lugar, que é inteligente. Temos que torcer que ela possa dar certo e a Itália possa crescer."

Nicarágua

“A Igreja (Católica) está com problema na Nicarágua porque há padres, bispos presos, e a Igreja quer que a Nicarágua os libere para voltarem para a Itália. Eu pretendo falar com o Daniel Ortega a respeito disso. Não tem por que o bispo ficar impedido de exercer sua função na Igreja. Essas coisas nem sempre são fáceis, porque nem todo mundo é grande para pedir desculpas. A palavra 'desculpa' é simples, mas exige muita grandeza. Mas vou tentar ajudar. É um trabalho de convencimento”.

Em fevereiro último, um tribunal da Nicarágua condenou o bispo nicaraguense dom Rolando José Álvarez Lagos a 26 anos de prisão, após ele se recusar a embarcar num avião junto com 222 outras pessoas: padres, seminaristas, opositores políticos, críticos do regime. Na sentença, ele é definido como “traidor da pátria”. O presidente Daniel Ortega o acusou de “terrorismo”. Outros sacerdotes estão detidos em prisões nicaraguenses.

Edição: Thales Schmidt