Obscurantismo

Sem base científica, médicos indicam o uso da ivermectina para covid-19 na internet

Procura pelo medicamento nas farmácias tem crescido e até prefeituras têm feito a distribuição do medicamento

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |

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Medicamento ganhou fama depois que testes iniciais realizados na Austrália foram bem sucedidos na eliminação do coronavírus - Reprodução


Informações sobre a ivermectina, um vermífugo indicado para tratamento de sarna, lombriga e piolhos, têm mobilizado as redes sociais ao mesmo tempo em que se vê uma verdadeira corrida às farmácias. 

Isso porque um estudo australiano divulgado em abril deste ano demonstrou a eficácia do medicamento na eliminação do coronavírus em testes in vitro. Porém, ainda não há nenhuma comprovação científica dos efeitos positivos do tratamento em humanos.

“Na verdade,  ainda não existe nenhuma resposta se a ivermectina que mata o vírus no laboratório também tem ação nas pessoas. Nenhum grande centro asiático ou europeu fez pesquisa com ivermectina para ver sua ação contra a covid-19. Existem estudos sendo feitos atualmente no Brasil, mas ainda na fase inicial. Então, essa resposta ainda não temos.” afirma Raquel Stuchhi, médica infectologista e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia.

Mesmo assim, videos de médicos indicando o uso do medicamento, e grupos de pessoas relatando as formas que têm usado a medicação se multiplicam na internet. Com o nome de Grupo de Amigos da Ivermectina, um grupo fechado no Facebook possui mais de 4,5 mil usuários. Na página, eles trocam informações sobre dosagens, formas de compra e os efeitos que vêm sentindo.


Usuários compartilham informações sobre automedicação com ivermectina / Reprodução


Usuários compartilham informações sobre automedicação com ivermectina / reprodução Facebook

A procura tem sido tanta que o Conselho Regional de Farmácia de São Paulo (CRFSP) lançou nota técnica indicando os procedimentos para a venda do produto e os riscos da automedicação. “Nós temos ficado muito preocupados porque a divulgação que tem sido feita dá a impressão de que ivermectina não só cura mas também previne. E não há nenhuma comprovação disso. Por isso estamos também orientando aos farmacêuticos para que não vendam ivermectina sem prescrição médica. Mas infelizmente, tem chegado uma quantidade muito grande de prescrições médicas de ivermectina. “ afirma Marcos Machado, farmacêutico e presidente do CRFSP.


Custando em média cerca de 20 reais, a ivermectina tem sido vendida sem prescrição médica também pela internet / Reprodução

Nos grupos de discussão sobre a ivermectina, grande parte das informações que endossam a defesa do remédio vem da médica Lucy Kerr, especialista em ultrassonografia. Em seu canal no youtube, a médica afirma que já atendeu uma sequência de 20 pacientes com covid-19 e tratou todos com sucesso utilizando a ivermectina. “Não perca tempo, o momento certo, para você se tratar e se curar se estiver infectado”, é como inicia um vídeo postado no dia 17 de junho que foi retirado do youtube mas permanece circulando em outras redes sociais.

“Nesse exato momento nós estamos vendo autoridades médicas, outros profissionais que estão praticamente rasgando tudo que temos de conhecimento até hoje. O mundo está desesperado para achar uma solução científica para resolver a covid-19 e, no Brasil, nós sinalizamos para a população que tomando um comprimido pode resolver toda essa pandemia. Isso me preocupa.” afirma Machado.

Outro argumento utilizado à favor do uso da ivermectina seria um relatório da Marinha da Brasil que indica o uso domiciliar do medicamento para quem estiver na primeira fase da doença. Porém, o documento também é falso, conforme verificação realizada pela Agência Lupa

Ivermectina como política pública

Além de médicos, governantes também difundem o medicamento, mesmo sem nenhum comprovação científica de sua eficácia. O prefeito de Itajaí (SC), por exemplo, autorizou a compra de um carregamento de mais de 1 milhão de doses do medicamento para distribuir para a população. No mesmo estado, Balneário de Camburiú e Biguaçu também adotaram a substância como estratégia de política pública de saúde.

Para Raquel Stucchi, é leviana esse tipo de relação de causa e efeito e que não há nada que justifique o tratamento em massa. “Eu acho importante lembrar que a gente está num ano de eleição. Precisamos ficar muito atentos de qual é o interesse de promessas milagrosas de cura de uma doença que o mundo usou dessa forma”, diz ela. 

 

Edição: Rodrigo Durão Coelho