caos climático

Calamidade no RS: águas chegaram a Porto Alegre e as entradas e saídas serão fechadas

O nível do rio Guaiba já atingiu 4,5 metros e a Defesa Civil estima que atingirá cinco metros

Brasil de Fato | Porto Alegre (RS) |
As águas já chegam à capital gaúcha inundando o Centro, bairro Arquipélago e tomando conta das ruas do 4º Distrito e de bairros na zona Sul - Foto: Alex Rocha/EBAT MAUA

Conforme o boletim da Defesa Civil desta sexta-feira (3), já chegam a 32 o número de mortos decorrentes das enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul e são 74 pessoas desaparecidas. As águas já chegam à capital gaúcha inundando o Centro, bairro Arquipélago e tomando conta das ruas do 4º Distrito e de bairros na zona Sul.

Uma falha numa das casas de bomba do sistema de proteção contra enchentes estava enchendo de água a avenida Mauá, no Centro Histórico. Durante a manhã, houve uma reunião das autoridades, na qual resolveram fechar as entradas e saídas de Porto Alegre.

O nível do rio (lago) Guaíba já atingiu 4,5 metros e a Defesa Civil estima que atingirá os cinco metros, 25 centímetros a mais do que na grande enchente de 1941. Perto do meio-dia foi fechada a travessia do Guaíba, as águas já estavam passando por cima da ponte nova.

“A situação que estamos vivenciando é absurdamente excepcional, não é simplesmente mais um caso crítico, é provavelmente o mais crítico que o estado terá registro na sua história”, afirmou o governador Eduardo Leite (PSDB) em uma live realizada na noite de quinta-feira (2).

“Com a mais profunda dor no coração eu sei dizer que será ainda mais que isso, esses números vão aumentar. Não estamos conseguindo acessar determinadas localidades, sabemos de deslizamentos, de inundação, de pessoas que estão em locais inacessíveis."

A instabilidade segue até sábado e domingo no RS. A expectativa é que haja mais 200mm de chuva da Serra para o Norte do estado. Como havia feito na coletiva de imprensa da quarta-feira, o governador ressaltou que essa enchente será pior que a do ano passado, e para as pessoas ficar distante das encostas.

Os óbito ocorridos e registrados foram nas seguintes localidades: Canela (2), Candelária (1), Caxias do Sul (1), Bento Gonçalves (1), Boa Vista do Sul (2), Paverama (2), Pantano Grande (1), Putinga (1), Gramado (4), Itaara (1), Encantado (1), Salvador do Sul (2), Serafina Corrêa (2), Segredo (1), Santa Maria (2), Santa Cruz do Sul (2), São João do Polêsine (1), Silveira Martins (1), Vera Cruz (1) e Taquara (2).

Situação dos rios agrava situação do Guaíba

De acordo com o governo do estado 235 municípios já foram afetados; 7.165 pessoas em abrigos; 17.087 desalojados; e 56 feridos. No total, 351.639 já foram afetadas pela enchente. Os rios Taquari, Jacuí e Caí estão passando pelas maiores cheias já registradas. A metade leste do estado é a região mais crítica. “Nesse momento, temos um grande volume de chuvas disperso pela semana e vai continuar chovendo. Os rios vão continuar elevados durante o final de semana”, salientou o governador.

Na live Leite destacou a situação do Guaíba, que por conta da contribuição das águas dos rios do estado pode atingir cinco metros. “Possivelmente será maior do que a enchente de 1941. Já está em 3,36 e nesta madrugada está subindo oito centímetros por metro/hora. Nessa madrugada ele já vai chegar a quatro metros”. 

O prognóstico do governo do estado corrobora o que foi exposto pela previsão desenvolvida no Instituto de Pesquisas Hidráulicas da  Universidade Federal do Rio Grande do Sul (IPH/Ufrgs). De acordo com professor Rodrigo Paiva, há possibilidade de superar o recorde histórico de 1941, quando alcançou 4,75.

Em reportagem publicada no Sul 21, Paiva afirmou que se as chuvas nos dias seguintes se confirmarem, esse cenário piora. “Se tiver um vento sul forte, esse nível pode subir algo como 50 cm, essa ordem de grandeza, depende da força do vento. E depende muito de como essa água está descendo lá do Taquari e do Jacuí até aqui. A gente tem alguma incerteza nesse comportamento desse volume de água, de como essa onda de cheia vai enfraquecendo ao chegar aqui. Como é um evento extraordinário, a gente não tem exatidão em como que acontece esse processo”, diz, acrescentando ainda que as simulações levam em conta todos esses fatores, em menor ou maior intensidade. “Em todos os cenários que a gente colocou, os níveis ficam bem elevados no Guaíba”, afirmou. 

O Grupo de pesquisa em Planejamento e Gestão de Recursos Hídricos, do IPH/Ufrgs, desenvolveu um mapa interativo que  aponta que se a cheia de 1941 acontecesse hoje impactaria 140.030 pessoas atingidas (Censo IBGE de 2022), 77.101 domicílios atingidos (Censo IBGE de 2022) e 63.975 edificações atingidas (Cadastro da Prefeitura de Porto Alegre, 2016). 

Barragens

A barragem Blang, no rio Caí, próximo de São Francisco de Paula, está sob vigilância intensa devido ao risco de rompimento. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), autarquia responsável pela fiscalização da represa, que assegurou a adoção imediata de medidas de emergência. Outra barragem em estado crítico é a de São Miguel, perto de Bento Gonçalves e Pinto Bandeira. Evacuações já estão sendo realizadas nas localidades próximas. Na quinta-feira (2) houve o rompimento parcial da barragem 14 de julho entre Cotiporã e Bento Gonçalves.

:: Barragem 14 de Julho rompe parcialmente devido à cheia na Serra gaúcha ::

A Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Infraestrutura (SEMA) informou que está monitorando 14 barragens de usos múltiplos que estão em estado de alerta, cinco delas já em processo de evacuação: barragem Santa Lúcia, em Putinga; barragem São Miguel do Buriti, em Bento Gonçalves; barragem Belo Monte, em Eldorado do Sul; barragem Dal Bó, em Caxias do Sul; e barragem Nova de Espólio de Aldo Malta Dihl, em Glorinha.

Pessoas resgatadas

Na live o chefe da Casa Militar, o coronel Luciano Chaves Boeira, informou que 4,6 mil pessoas já foram resgatadas pelo efetivo da Defesa Civil no estado. Mais de 2,5 mil servidores estão atuando nas ações de busca e salvamento com apoio das Forças Armadas e de outros estados do Brasil.

“Temos que buscar locais seguros, evitar encostas de rios. Já superamos as cotas [de rios] alcançadas em setembro e novembro de 2023. As pessoas também devem ter muito cuidado nas rodovias, há aproximadamente 160 bloqueios”, reforçou Boeira.

Encontro com Lula

“Hoje tive reunião com o presidente da República. O presidente Lula veio ao RS, foi muito importante a vinda dele porque uma reunião sentados a volta de uma mesa substitui milhares de ligações, ofícios e expedientes. Sentar, conversar, botar os ministros e os secretários, a equipe à mesa para alinhar esforços é muito importante. Buscamos ainda ter apoio e estrutura neste momento para os resgates, em seguida para a mitigação e os primeiros esforços para normalidade na vida das pessoas e em seguida para reconstrução”, avaliou Leite.

Em sua conta no X, Lula afirmou que governo federal fará de tudo para ajudar os governos municipais e estaduais. “Eu fiz questão de trazer meus ministros para que todos se comprometam com a população nas ações de solidariedade às vítimas das fortes chuvas. No primeiro momento, a gente só tem que salvar vidas”, afirmou o presidente.

 

Lula criou uma sala de situação multiministerial com plano de ação integrado de apoio ao Rio Grande do Sul. Na volta a Brasília houve a primeira reunião ministerial para instalação da Sala de Situação sobre as chuvas no RS, com a presença dos seguintes ministros: Paulo Pimenta (Secom), Renan Filho, Rui Costa, Waldez Góes, Jader Barbalho, Esther Dweck e Marina Silva.

De acordo com o governo federal a ajuda imediata incluiu 626 militares atuando nos resgates, 45 viaturas, 12 embarcações e cinco aeronaves. Ainda segundo a autarquia desde 2023, o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional já repassou R$ 325 milhões para a reconstrução de cidades gaúchas, atendendo a 100% dos pedidos enviados pelas prefeituras gaúchas, nos desastres climáticos anteriores.

Recurso do STF

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Luís Roberto Barroso, anunciou nesta quinta-feira (2) que o Judiciário vai enviar recursos para ajudar na recuperação do Rio Grande do Sul.

No início da sessão desta quinta-feira (2), Barroso informou que os recursos são oriundos de fundos pertencentes ao Poder Judiciário. O dinheiro foi arrecadado com recebimento de multas e poderá ser direcionado para a população afetada. "Queria manifestar a solidariedade do STF ao governador Eduardo Leite e aos poderes Judiciário e Legislativo pelo drama das inundações”, declarou o ministro.

Como estão os rios no estado 

Em relação aos rios a Defesa Civil traz os seguintes alertas: Rio Gravataí, alerta para inundação, com níveis em elevação. Taquari, em inundação severa com risco extremo. Rio Caí também com inundação severa e tendência de elevação. Rio Jacuí inundação severa, com elevação. Rio Ibirapuitã inundação severa, que apresenta continuidade de elevação em Alegrete.

O Rio dos Sinos também vem com alerta de inundação em elevação. Em Novo Hamburgo, está com 8,45 metros na medição das 21h30 desta quinta-feira, dia 2, superando a enchente de 2013, quando atingiu o nível de 8,22 metros. O município registra 300 pessoas desabrigadas devido à alta do nível do Rio dos Sinos.

Para acolher as famílias desabrigadas, a prefeitura abriu três pontos para acolhimento:

- Bairro Canudos, no ginásio do CIEP Canudos (Rua Amalie Thon, 50, entrada pela Rua Presidente Costa e Silva)

- Bairro Industrial, no ginásio do Colégio Sinodal da Paz (Avenida Pedro Adams Filho, 1974), este último como referência para moradores do bairro Santo Afonso

- Bairro Rondônia, no ginásio do Sesi.

Em São Leopoldo, a prefeitura emitiu alerta de segurança em relação aos moradores do bairro São Miguel, Vicentina e Vila Brás. A captação de água foi interrompida devido ao nível do Rio dos Sinos deixando a cidade sem abastecimento de água. 

 

Em Novo Hamburgo, a Comusa, empresa pública que cuida do abastecimento de água da cidade, informa que a captação de água do Rio dos Sinos está suspensa, por tempo indeterminado, causando interrupção do tratamento e distribuição de água em Novo Hamburgo. A cheia histórica do Rio dos Sinos já cobriu todos os transformadores que fazem a captação de água, no bairro Lomba Grande.

Devido ao volume de chuva registrado dos últimos quatro dias, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) considera “muito altas” as chances de, nas próximas 48 horas, ocorrerem novas inundações graduais e bruscas e de alagamentos em áreas rebaixadas da Região Metropolitana de Porto Alegre, bem como nas mesorregiões Nordeste, Centro-Oriental e Centro-Ocidental Rio-Grandense, além de parte do Sul catarinense.

Segundo o Cemaden, se a previsão se confirmar, o nível dos rios Taquari, Caí, Sinos, Gravataí, Baixo Jacuí, Maquiné e Três Forquilhas continuarão subindo.

Escolas e rodovias 

As aulas da rede estadual seguem suspensas, totalizando 2.338 estabelecimentos.

Dados das escolas afetadas (danificadas, servindo de abrigo, com problemas de transporte, com problema de acesso e outros):

507 escolas
173 municípios
20 Coordenadorias Regionais de Educação
173.499 estudantes impactados
195 escolas danificadas
13 escolas servindo de abrigo

As chuvas que atingem o estado provocam danos e alterações no tráfego nas rodovias estaduais gaúchas. Nesta sexta-feira (3), são 154 trechos em 68 rodovias com bloqueios totais e parciais, entre estradas e pontes, conforme atualização das 9h. A Polícia Rodoviária Federal informa que a ponte do KM 107 em Eldorado do Sul está ruindo, e tem risco iminente de queda.

As informações são do Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (Daer), consolidadas com o Comando Rodoviário da Brigada Militar (CRBM), abrangendo também rodovias concedidas e as administradas pela Empresa Gaúcha de Rodovias (EGR). A Secretaria de Logística e Transportes (Selt) trabalha para desobstruir as rodovias o mais rápido possível, de maneira a garantir o tráfego de veículos e pedestres.

Fonte: BdF Rio Grande do Sul

Edição: Katia Marko