sem diálogo

Com reajuste 'desrespeitoso', servidores de São Paulo suspendem greve e mantêm mobilização

Insuflados pela base de Ricardo Nunes (MDB), vereadores aprovam reajuste de 2,16% para o funcionalismo de São Paulo

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Servidores municipais da educação protestam em São Paulo (SP) por reajuste salarial
Servidores municipais da educação protestam em São Paulo (SP) por reajuste salarial - Elineudo Meira / @fotografia.75

Os servidores municipais de São Paulo decidiram, em assembleia, suspender a greve iniciada na semana passada. A decisão foi tomada depois que a Câmara aprovou na terça-feira (26), em segundo turno, o Projeto de Lei (PL) 115, da prefeitura, de reajuste salarial aos servidores municipais. O índice de 2,16%, que não cobre a inflação, foi considerado “desrespeitoso” pelos representantes da categoria.

Porém, diante da falta de diálogo do prefeito Ricardo Nunes (MDB), que já havia recorrido à Justiça para impor a volta ao trabalho dos profissionais da saúde, a avaliação foi de suspender o movimento. Mas com indicativo de retomar a paralisação caso o Executivo não negocie os dias parados ou tente punir os grevistas. Ou se a prefeitura propuser “reestruturação” das carreiras da Educação ou ataque qualquer outro setor.

Projeto aprovado sob protestos

Foram 37 votos favoráveis ao projeto e 15 contrários, com três ausências – no primeiro turno, 38 a 15. A matéria fixa reajuste de 2,16%. Com a chancela do parlamento, agora o índice é definitivo, apesar da rejeição da categoria em assembleias e nas negociações.

Assim, o texto irá para a sanção do prefeito Ricardo Nunes (MDB), autor do PL. Enquanto isso, os servidores classificam o aumento como “desrespeitoso” por sequer cobrir a inflação. As categorias permaneceram diante Câmara durante toda a votação. Elas pedem 16% de reajuste, além de mais concursos, condições dignas de trabalho e o fim das terceirizações, entre outros itens. Agora, deve ser formado um grupo de trabalho para discutir a revisão da legislação sobre as férias.

Havia expectativa de maior abertura para diálogo. A oposição à gestão bolsonarista de Nunes tentou articular, sem sucesso, uma negociação mais efetiva. Também havia expectativa da apresentação de um substitutivo mais benéfico, que também não aconteceu.

Desprezo do prefeito

Antes da votação, os vereadores discordaram sobre o texto. Parlamentares da oposição tomaram a tribuna sob manifestações de apoio dos servidores presentes no plenário. “Em respeito aos milhares de servidores, maioria mulheres, temos que pontuar o desprezo do prefeito Ricardo Nunes com essas trabalhadoras”, disse o vereador Celso Giannazi (Psol).

“Há uma hipocrisia no ar. Ele encontra professora e não olha na cara dela para falar que valoriza 2,16%. Não fala que confiscou 14% da aposentadoria. Impede professores de comprarem cesta básica, medicamento. Muitos vereadores e vereadoras sabem disso. Não é sobre recurso. A prefeitura vive um ótimo momento financeiro. Então não dá reajuste porque não quer. Ricardo Nunes odeia servidor”, sentenciou.

Seu companheiro de partido, Professor Toninho Vespoli, reforçou as críticas a Nunes. Ele também citou informações distorcidas do bolsonarista Rubinho Nunes (União Brasil). “O vereador Rubinho Nunes chama de ‘privilégios e regalias’. Rubinho diz ser advogado, mas ele é office boy do capital imobiliário em São Paulo”, ironizou.

Produtor de fake news

“Ele tem dinheiro pra se vestir muito bem. Então, para falar a verdade, um servidor da Educação começa com 1,5 mil reais. E acaba com 4,5 mil reais. Um professor contratado começa com 1,7 mil reais ou 2,1 mil reais. Pessoa de nível universitário. É muito diferente do que fala o Rubinho. Ele tem que ficar na insignificância dele. Ele produz fake news“, completou Vespoli.

A vereadora Luana Zarattini, do PT, também subiu o tom contra Rubinho. “Os servidores merecem respeito. Eles estão em greve não porque acham bom. Eles chegaram em uma situação limítrofe de precariedade, condições terríveis (…) O que os vereadores do MBL fazem, usando a tribuna, é atacar e desrespeitar servidores que têm direito de greve, direito de reivindicar. Esse aumento da prefeitura está abaixo da inflação. Isso é arrocho salarial. Não respeitam a tribuna, não respeitam a divergência. Desrespeitoso, odioso, todos seus discursos”, afirmou.

Rubinho, por sua vez, manteve a postura autoritária. “São 5 da tarde e os senhores estão aqui enchendo o saco (…) Sindicalista não é trabalhador. A opinião de vocês não me importa, tampouco o que os senhores falam. Para concluir, o que desrespeita o pai dos alunos é o professor em greve. O professor abandonou aluno para montar piquete sendo que tem salário, gratificação (…) De forma muito sincera, gostaria de votar contra o projeto para dar 0,01% de aumento. Porque esse piquete é absurdo.”

Voz dos servidores

Enquanto o debate tomava conta do plenário, Laudiceia Reis, agente de endemias no bairro do M’Boi Mirim, na zona sul, fez um relato emocionado sobre as dificuldades de seu ofício na gestão Nunes. “Estamos aqui para expressar que nossa construção é coletiva. Fazemos um trabalho juntos há anos. O sistema de vigilância está em guerra contra Nunes. Desde a pandemia com a gestão Covas e Nunes, estamos expostos às piores condições de trabalho. Temos uma construção de muito tempo e continuaremos na luta, nas ruas”, disse.

Por fim, ela pediu mobilização para derrubar Nunes no pleito eleitoral de outubro. Ele é pré-candidato à reeleição. “Nunes vai cair no final desse ano, derrotaremos esse prefeito. Não é possível. Precisamos de concursos públicos, não tem gente para dar conta da dengue. Não aceitaremos, denunciaremos todos os dias.”

Após judicialização que obrigou o retorno de todos os servidores da Saúde a seus postos, os relatos foram de assédio. “Voltamos ao trabalho com muito medo e receio. Só queremos condições dignas de trabalho. O ambiente é de assédio. Estamos nesta luta em meio a muita luta de classes nesse país. Temos uma grande violência que tenta criminalizar nossa luta. Não querem ouvir a mulher servidora.”, disse Lígia Mendes, diretora do Sindicato dos Servidores Municipais de São Paulo (Sindsep).Luta dos servidores

João Batista, o Joãozinho da CUT, representando o Fórum das Entidades dos Servidores Municipais de São Paulo, chamou o projeto do prefeito de “escárnio”. “Nossa luta vai continuar. Esse ano sabemos que tem o problema eleitoral. Mas continuaremos a luta. Por reajuste, pelo fim do confisco, pela revisão da lei das férias. Continuaremos batalhando por melhores condições de trabalho. Essa é a luta unificada do funcionalismo. Nada pode nos impedir. Nem prefeito, nem qualquer força oculta. Continuaremos pelo reajuste. Vamos ficar aqui na porta defendendo nossos companheiros, 2,16% é um desrespeito. Ricardo Nunes desrespeita todos os trabalhadores da prefeitura que mais arrecada no país.”