Minas Gerais

Coluna

Guardadores de água, haveremos de ser!

Imagem de perfil do Colunistaesd
Imagem - Semad / Divulgação
Mudanças climáticas, acesso à água e desenvolvimento não se apartam das discussões sobre justiça so

Costumo dizer que a defesa da vida é a minha mais importante bandeira de luta. A vida em sua amplitude e biodiversidade. Como bióloga por formação, discuto e sempre defendi um modelo de desenvolvimento que pudesse levar em conta a ambiência, a interconexão entre homem-água-bicho-produção.

Venho do Semiárido Mineiro, do Norte de Minas, região reconhecida pela escassez de água, onde fomos acostumados a repetir que precisamos combater a seca. Eu, que já atuei em diversas entidades, organismos da sociedade civil organizada que lidam com essa condição, sei que não se combate aquilo que é natural, se convive. Propomos e trabalhamos pela convivência com a seca e não a conveniência com a seca, com isso, propomos um debate sobre políticas estruturantes de convivência com a seca e o combate à desertificação, um outro grave problema da nossa região e de outros biomas brasileiros.
 

:: Receba notícias de Minas Gerais no seu Whatsapp. Clique aqui ::

A questão hídrica é tema de repercussão global. Neste dia Mundial da Água, é importante fazermos uma reflexão sobre a emergência e as mudanças climáticas, mas, sobretudo, sobre o direito humano de acesso à água e ao saneamento básico. Tudo está interligado, assim como a nossa compreensão sobre o meio ambiente e a humanidade.

Racismo ambiental e justiça climática

E é no contexto de humanidade, em stricto sensu, que precisamos debater o racismo ambiental e a justiça climática. Precisamos lembrar que navegamos no mesmo mar, porém não estamos no mesmo barco. Pretos, pobres, indígenas e povos tradicionais são as maiores vítimas das consequências das mudanças climáticas. Todos sentimos calor? Sim, mas como experienciamos as ondas de calor dos últimos meses? Muitos de nós, em ambientes arejados, climatizados, com saneamento, onde podemos tomar quantos banhos quisermos, por dia. Água gelada e tratada. Cada um em seu quarto, sala, escritório. A verdade é que a maioria de nossa população não vivenciou o extremo calor nessas condições. Compartilham espaços sem ventilação, sem saneamento básico, falta água para beber e para o banho, sem energia elétrica, ventilador.

E não é diferente quando o revés são as chuvas, as enchentes que arrastam barracos, deslizam as precárias construções morro abaixo. O pouco conquistado a vida inteira é levado em frações de segundo. Seja em qual for a situação, são os pobres, os pretos, periféricos, os pequenos agricultores familiares que vêm o sonho e o esforço de uma vida descer água abaixo.

Exigir de quem sofre, homem e natureza, resiliência e adaptabilidade é ignorar a causa primária do sofrimento em si. Desigualdade socioeconômica e percepção nociva de desenvolvimento social em detrimento da própria humanidade e ambiência.

O que fazer?

Precisamos, é evidente, desenvolver estratégias de adaptação para o setor agrícola, incrementando a resiliência dos sistemas produtivos, reduzindo a vulnerabilidade e aumentando a capacidade de se adaptar diante dos impactos causados por eventos climáticos. Mas precisamos ir ao cerne da questão e reconhecer, individual e coletivamente, que somos responsáveis por mudanças de atitude, decorrentes também da nossa capacidade de resistir, ressignificar e nos adaptar como humanidade.

Tenho insistido na Assembleia Legislativa sobre a necessidade de estabelecermos um regramento jurídico que reconheça a natureza, a questão ambiental, os povos e comunidades tradicionais como centrais na discussão sobre o modelo de desenvolvimento que queremos para Minas e para as Gerais. Tenho buscado, como mulher preta e periférica, usar o meu lugar de fala, e na Mesa Diretora, para buscar, seja por meio de um Estatuto de Igualdade Racial, seja com projetos de lei e da fiscalização do Estado, apontar uma seta para um novo tempo. 

Mudanças climáticas, acesso à água e desenvolvimento não se apartam das discussões sobre justiça social, climática, direito à cidade, à terra e ao território. Tudo é cíclico. Tudo está interligado. Heráclito, o filósofo do fogo, sustentou seu pensamento na mutabilidade do mundo e da natureza. Somos um fluxo perpétuo, em que princípio e fim se confundem. Que não sejamos um fim em nós mesmos!

 

Leninha é deputada estadual pelo PT, 1ª vice-presidenta da Assembleia Legislativa de Minas Gerais e vice-presidente estadual do Partido dos Trabalhadores

--

Leia outros artigos de Leninha Souza em sua coluna no jornal Brasil de Fato MG

--

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

 

Edição: Leonardo Fernandes