Coluna

Um novo clima no mundo colocará fim à Doutrina Monroe global

Imagem de perfil do Colunistaesd
Tagreed Darghouth (Líbano), da série The Tree Within, a Palestinian Olive Tree [A árvore de dentro, uma oliveira palestina] 2018. - Tricontinental
Política conhecida como Doutrina Monroe trata a América Latina e o Caribe como 'quintal' dos EUA

Queridas amigas e amigos,

Saudações do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.

Todos os dias, desde 7 de outubro, tem sido um Dia Internacional de Solidariedade ao Povo Palestino, com centenas de milhares de pessoas manifestando-se em Istambul, um milhão em Jacarta e, depois, mais um milhão em toda a África e América Latina para exigir o fim do ataque brutal que está sendo realizado por Israel (com a conivência dos Estados Unidos). É impossível acompanhar a escala e a frequência dos protestos, que estão pressionando os partidos políticos e os governos a esclarecerem suas posições sobre o ataque de Israel à Palestina. Essas manifestações em massa geraram três tipos de resultados:

1)   Atraíram uma nova geração não apenas para ações em favor da Palestina, mas também para a consciência antiguerra – se não anti-imperialista.

2) Atraíram um novo setor de ativistas, especialmente sindicalistas, que interromperam o envio de mercadorias para Israel (inclusive em lugares como Europa e Índia onde os governos apoiaram os ataques israelenses).

3) Geraram um processo político para questionar a hipocrisia da “ordem internacional baseada em regras” liderada pelo Ocidente, e exigir que o Tribunal Penal Internacional indicie o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e outros altos funcionários do governo israelense.

Nenhuma guerra nos últimos anos – nem mesmo a campanha “choque e pavor” usada pelos Estados Unidos contra o Iraque em 2003 – foi tão implacável em seu uso da força. O mais terrível é a realidade de que os civis, encurralados pela ocupação israelense, não têm como escapar do pesado bombardeio. Quase a metade (pelo menos 5.800) dos mais de 14 mil civis que foram assassinados são crianças. Nenhuma propaganda israelense foi capaz de convencer bilhões de pessoas em todo o mundo de que essa violência é uma resposta justa ao ataque de 7 de outubro. Imagens de Gaza mostram a natureza desproporcional e assimétrica da violência israelense nos últimos 75 anos.


Vincent De Pio (Filipinas), Back to the Future [De Volta para o Futuro], 2012. / Tricontinental

Um novo estado de espírito se enraizou entre bilhões de pessoas no Sul Global e espelhado por milhões no Norte Global, que não acata as atitudes dos EUA e de seus aliados ocidentais. Um novo estudo do Conselho Europeu de Relações Exteriores mostra que “grande parte do resto do mundo quer que a guerra na Ucrânia termine o mais rápido possível, mesmo que isso signifique que Kiev perca território. E pouquíssimas pessoas, mesmo na Europa, ficariam do lado de Washington se houvesse uma guerra entre os EUA e a China por causa de Taiwan”. O conselho sugere que isso se deve à “perda da fé no Ocidente para ordenar o mundo”. Mais precisamente, a maior parte do planeta não está mais disposta a ser intimidada pelo Ocidente (como disse o Ministro das Relações Exteriores da África do Sul, Naledi Pandor). Nos últimos 200 anos, a Doutrina Monroe dos EUA tem sido fundamental para justificar esse tipo de intimidação. Para entender melhor a importância dessa política fundamental na manutenção do domínio dos EUA sobre a ordem mundial, o restante desta carta semanal apresenta o Briefing n. 11 de Basta de Guerra Fria: É hora de enterrar a Doutrina Monroe.

É hora de enterrar a Doutrina Monroe

Em 1823, James Monroe, então presidente dos Estados Unidos, disse ao Congresso dos EUA que seu governo se posicionaria contra a interferência europeia nas Américas. O que Monroe quis dizer foi que Washington, a partir de então, trataria a América Latina e o Caribe como seu “quintal”, com base em uma política conhecida como Doutrina Monroe.

Nos últimos 200 anos, os Estados Unidos atuaram nas Américas de acordo com esse paradigma, exemplificado pelas mais de 100 intervenções militares realizadas em países da região. Desde a queda da União Soviética em 1991, os EUA e seus aliados do Norte Global tentaram expandir essa política para uma Doutrina Monroe Global, de forma mais destrutiva na Ásia Ocidental.


Stivenson Magloire (Haiti), Divided Spirit [Espírito dividido], 1989. / Tricontinental

A violência da Doutrina Monroe

Duas décadas antes da proclamação do então presidente Monroe, a primeira revolução anticolonial do mundo ocorreu no Haiti. A Revolução Haitiana de 1804 representou uma séria ameaça às economias baseadas no modelo de plantation das Américas, que dependiam da mão de obra escravizada da África e, por isso, os EUA lideraram um processo para sufocá-la e evitar que se espalhasse. Por meio de intervenções militares dos EUA na América Latina e no Caribe, a Doutrina Monroe impediu o surgimento da autodeterminação nacional e defendeu a escravidão nas plantações e o poder das oligarquias.

No entanto, o espírito e a promessa da Revolução Haitiana não puderam ser extintos e, em 1959, foram reacendidos pela Revolução Cubana, que, por sua vez, inspirou lutas revolucionárias em todo o mundo e, principalmente, no chamado “quintal” dos Estados Unidos. Mais uma vez, os EUA iniciaram um ciclo de violência para destruir o exemplo revolucionário de Cuba, impedir que ele inspirasse outros e derrubar qualquer governo da região que tentasse exercer sua soberania.

Juntas, as oligarquias dos EUA e da América Latina lançaram várias campanhas, como a Operação Condor, para reprimir violentamente a esquerda por meio de assassinatos, encarceramentos, tortura e mudança de regime. Esses esforços culminaram em uma série de golpes contra as forças de esquerda na República Dominicana (1965), Chile(1973), Uruguai (1973), Argentina (1976) e El Salvador (1980). Os governos militares que foram instalados posteriormente anularam a agenda da soberania e impuseram um projeto neoliberal em seu lugar. A América Latina e o Caribe tornaram-se terreno fértil para políticas econômicas que beneficiaram os monopólios transnacionais liderados pelos EUA. Washington cooptou grandes setores da burguesia da região, vendendo-lhes a ilusão de que o desenvolvimento nacional viria junto com o crescimento do poder dos EUA.


Oswaldo Vigas (Venezuela), Duende Rojo [Duende vermelho], 1979. / Tricontinental

Ondas progressistas

Apesar dessa repressão, ondas de movimentos populares continuaram a moldar a cultura política da região. Durante as décadas de 1980 e 1990, esses movimentos derrubaram as ditaduras militares implantadas pela Operação Condor e, em seguida, inauguraram um ciclo de governos progressistas inspirados nas revoluções cubana e nicaraguense e impulsionados pela vitória eleitoral de Hugo Chávez na Venezuela em 1998. A resposta dos Estados Unidos a esse progressismo foi mais uma vez orientada pela Doutrina Monroe, buscando garantir os interesses da propriedade privada em detrimento das necessidades das massas. Essa contrarrevolução empregou três instrumentos principais:

  1. Golpes. Desde 2000, os EUA tentaram realizar golpes de Estado militares “tradicionais” em pelo menos 27 ocasiões, sendo que algumas dessas tentativas foram bem-sucedidas, como em Honduras (2009), enquanto muitas outras foram derrotadas, como na Venezuela (2002).
  2. Guerras híbridas. Além do golpe militar, os EUA também desenvolveram uma série de táticas para subjugar os países que estão tentando construir sua soberania, como a guerra de informações, guerra jurídica, guerra diplomática e interferência eleitoral. Esta guerra híbrida inclui a fabricação de escândalos que levam a processos de impeachment (por exemplo, contra Fernando Lugo, do Paraguai, em 2012) e medidas “anticorrupção” (como contra Cristina Kirchner, da Argentina, em 2021). No Brasil, os EUA trabalharam com a direita brasileira para manipular uma plataforma anticorrupção que engendrou o impeachment da então presidenta Dilma Rousseff, em 2016, e a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2018, o que levou à eleição de Jair Bolsonaro, da extrema direita, em 2018.
  3. Sanções econômicas. O uso de medidas coercitivas ilegais e unilaterais, incluindo sanções econômicas e bloqueios, é um instrumento fundamental da Doutrina Monroe. Os EUA empregam esses instrumentos há décadas (desde 1960, no caso de Cuba) e expandiram seu uso no século XXI contra países como Venezuela. O Centro Latino-Americano de Geopolítica Estratégica (Celag) mostrou que as sanções dos EUA contra a Venezuela levaram à perda de mais de três milhões de empregos de 2013 a 2017, enquanto o Centro de Pesquisa Econômica e Política constatou que as sanções reduziram a ingestão calórica do povo e aumentaram as doenças e a mortalidade, matando 40 mil pessoas em um único ano e colocando em risco a vida de outras 300 mil.


Maya Weishof (Brasil), Entre conversas e mitos, 2022. / Tricontinental

Acabar com a Doutrina Monroe

As tentativas dos EUA de minar a política progressista na América Latina por meio da Doutrina Monroe não foram totalmente bem-sucedidas. O retorno de governos de esquerda ao poder na Bolívia, no Brasil e em Honduras, depois de regimes de direita apoiados pelos EUA, ilustra esse fracasso. Outro sinal é a resistência das revoluções cubana e venezuelana. Até o momento, embora os esforços para expandir a Doutrina Monroe pelo mundo tenham causado imensa destruição, eles não conseguiram instalar regimes subservientes estáveis, como vimos com a derrota dos projetos dos EUA no Afeganistão e no Iraque. No entanto, Washington não se intimidou e mudou seu foco para a Ásia-Pacífico para se opor à China.

Há 200 anos, as forças de Simón Bolívar derrotaram o Império Espanhol na Batalha de Carabobo, em 1821, e abriram um período de independência para a América Latina. Dois anos depois, em 1823, o governo dos EUA anunciou sua Doutrina Monroe. A dialética entre Carabobo e Monroe continua a moldar nosso mundo, a memória de Bolívar incutiu a esperança e a luta por uma sociedade mais justa.


Sheena Rose (Barbados), Agony, [Agonia] 2022. / Tricontinental

Hoje, o horror da guerra em Gaza sufoca nossa consciência. Em Berry, uma poeta de Aotearoa, Nova Zelândia, escreveu um belo poema sobre o nome Gaza e as atrocidades infligidas a seu povo pelo apartheid israelense:

Esta manhã, fiquei sabendo que

A palavra inglesa gaze

(tecido médico finamente trançado)

vem da palavra árabe غزة ou Ghazza

porque os habitantes de Gaza são tecelões habilidosos há séculos

Então me perguntei

quantas de nossas feridas

foram vestidas

por causa deles

e quantas delas

foram deixadas em aberto

por nossa causa

Cordialmente,

Vijay.

 

* Vijay Prashad é historiador e jornalista indiano, diretor geral do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.

** Este é um texto de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Vivian Virissimo