CHUVAS

Solução para o fim das inundações em BH só virá com medidas ambientais, dizem especialistas

Até o momento, já choveu mais da metade do esperado para todo o mês de dezembro na capital

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG) |
"É preciso investir em áreas de drenagem e permeação do solo, como jardins e parques", avalia .o urbanista Roberto Andrés - Agência Brasil

Entra ano, sai ano e o cenário catastrófico que se instaura em Belo Horizonte durante o período das chuvas é um trauma vivo para os moradores. Ruas alagadas, enxurradas que arrastam pessoas e veículos, desmoronamentos. A lista de danos é infinita. Até o momento, já choveu mais da metade do esperado para todo o mês de dezembro.

Mas, o que tem sido feito para sanar o problema?

Neste ano, a prefeitura anunciou uma série de obras que foram concluídas ou estão em curso, como limpeza de canais, construção de saneamentos básicos e principalmente grandes projetos de bacias e reservatórios para as águas, como o que está sendo feito na Avenida Vilarinho em Venda Nova, região Norte da capital.

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Mais árvores e áreas de penetração do solo

O urbanista Roberto Andrés explica que, desde 1920, Belo Horizonte tem apostado nas propostas de macrodrenagem como solução para inundações e contenção das águas da chuva. “Esse modelo faliu, a gente precisa superá-lo", afirma o professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Andrés explica que é preciso mudar o paradigma sobre a questão. “A cidade está toda impermeabilizada com asfaltos, calçadas etc. É preciso investir em áreas de drenagem e permeação do solo, como jardins e parques”, completa.

A opinião é compartilhada pelo ambientalista Marcus Vinícius Polignano, coordenador do projeto Manuelzão, da UFMG. O pesquisador afirma que a tendência para os próximos anos é o aumento das chuvas repentinas e intensas, e por isso é preciso pensar mecanismos para a absorção dessas águas, pensando a cidade como uma esponja.

“Os rios foram todos canalizados para atender à demanda de trânsito, como se isso resolvesse o problema das águas. Os rios têm seu curso natural e a canalização, junto com a falta de permeabilização do solo, só torna esse fluxo mais violento”, explica. “Sem uma visão mais ampla de cidade e da relação dela com as águas, a gente não vai sair desse impasse”, reforça.

O que poderia ser feito?

Outra medida que vai de encontro aos apontamentos dos professores, seria por exemplo, a fiscalização da execução da Lei de Uso e Ocupação do Solo de Belo Horizonte. A determinação impõe que todos os lotes da cidade devem ter 20% da sua área permeável. Para Andrés, o Executivo tem condições de fazer um acompanhamento efetivo da lei e também incentivar os habitantes a cumprirem ou superarem a meta.

Todos perdem, mas os mais pobres perdem mais

Em 2021, a Câmara de Vereadores de Belo Horizonte vetou o Projeto de Lei (PL) 1026/20, de autoria do Executivo, que pleiteava a liberação de um empréstimo de R$ 900 milhões para a realização de obras emergenciais para contenção dos danos das chuvas.

Apesar das críticas ao texto, sobretudo pela falta de diálogo na elaboração do PL, a vereadora Bella Gonçalves (PSOL) apresentou emendas à proposta, sugerindo que parte do recurso fosse utilizado para a urbanização sustentável das ocupações da Izidora.

“Os vereadores, por uma postura de disputa e medição de força com a prefeitura, impediram que uma região muito importante pudesse ser urbanizada, com respeito aos rios e nascentes. Isso, a longo prazo, pode agravar não só a situação dessas famílias, mas de outras também, porque os rios não respeitam as fronteiras geográficas nem econômicas”, pontua.

Outra decisão que também ilustra a desigualdade enfrentada pelas populações mais pobres de Belo Horizonte no momento de chuvas é a construção da bacia de contenção na Vilarinho. Roberto Andrés ressalta que ações como essa não seriam aceitas em áreas mais nobres da cidade.

“Quando vazia, a bacia vai gerar lixo, ratos, mau cheiro, condições precárias de vida. Então, a gente percebe que há o entendimento do Executivo que há cidadãos de primeira e de segunda classe. Isso é um pressuposto que a gente precisa superar”, declara.

O que fazer em caso de chuva forte?

Até o momento, de acordo com dados da Defesa Civil de Minas Gerais, sete pessoas foram vítimas fatais das tragédias causadas pelas chuvas no estado. Em 2021, foram 30 óbitos, um deles em Belo Horizonte. Entre 2021 e 2022, mais de 60 mil pessoas ficaram desalojadas e cerca 10 mil mineiros estão ou ficaram desabrigados.

Caso você enfrente forte chuvas na sua região, seguem algumas dicas importantes da Defesa Civil:

Não trafegue em áreas de inundação ou ruas sujeitas a alagamentos nos momentos de forte chuva;

Não atravesse ruas alagadas, nem deixe crianças brincando nas enxurradas e próximo a córregos;

Se você for surpreendido dentro do carro por uma inundação, abra os vidros, suba no teto pela janela, peça socorro e se possível ligue 193, para os bombeiros;

Não estacione veículos debaixo de árvores;

Nunca se aproxime de cabos elétricos rompidos e, durante tempestade com raios, desligue os aparelhos elétricos. Se estiver na rua, não permaneça em área aberta e não se abrigue embaixo de árvores;

Se notar rachaduras nas paredes das casas ou o surgimento de fendas, depressões ou minas d’água no terreno, avise imediatamente a Defesa Civil pelo número 199;

Não consuma água nem alimentos contaminados pelas inundações.

Para se manter informado sobre a situação meteorológica da sua cidade, você pode seguir o perfil da Defesa Civil nas redes sociais. Além disso, também é disponibilizado um serviço de alerta de risco. Basta enviar o número do seu CEP para o SMS 40199. Assim, sempre que houver riscos na sua região, você será avisado.

Fonte: BdF Minas Gerais

Edição: Larissa Costa