Vulnerabilidade

"Ao deus-dará": com Bolsonaro, brasileiros passam fome e dependem de doações para comer

Dados da Rede Penssan mostram que quase 33 milhões de pessoas passam fome no Brasil hoje

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |
Estima-se que 63.800 pessoas estejam em situação de rua somente no estado de São Paulo - Pedro Stropasolas

No estado de São Paulo, 6,8 milhões de pessoas estão passando fome, segundo o Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, publicado pela Rede Penssan em setembro deste ano. Uma delas é Maria Glades Silva, de 68 anos.

Arrastando um carrinho de feira, cheio de vasilhas vazias, ela aguarda para receber uma das 1.400 marmitas que são distribuídas diariamente na hora do almoço pelo Projeto Cozinha Escola Pop Rua, no centro de São Paulo. No sol de meio dia, esta será a primeira refeição de Maria do dia, e provavelmente a última. Questionada sobre o que comerá no fim do dia, ela responde: "À noite? Ao deus-dará".

A marmita que ela consegue ainda terá de ser dividida com as crianças da vizinha, que perderam os pais para a covid-19 e agora dela dependem. Para fazer render, a estratégia é cozinhar fubá e misturar com a marmita.

Além das crianças, Maria ainda apanha os restos de alimentos deixados por outras pessoas nas calçadas para sustentar os cachorros de sua rua. "Pego as sobras, que fica muita marmita jogada, junto essas comidas. Trago a sacolinha, coloco na sacolinha. Cato latinha, compro ração e misturo para sustentar nossos animaizinhos", diz.

Quando não consegue ir até o centro para pegar marmita, Maria se vira com "um lanchinho". Por enquanto, a sua única fonte de renda vem das latinhas que recolhe dos lixos e dos panos de prato que vende nas ruas. A esperança é receber o Benefício Assistencial à Pessoa com Deficiência (BPC), cuja solicitação está em análise, já que sofre de pleuropatia, que atinge a cama de tecido que reveste a parede interna do tórax e envolve os pulmões.

:: Fome se alastra no Brasil: 6 em cada 10 famílias não têm acesso pleno a alimentos ::

"Eu tinha uma barraquinha, mas que foi levada pela chuva. Foi onde agravou mais os problemas de saúde, porque com fome, friagem, sem remédio... Quem resiste? Ninguém resiste. Uma saturação normal de oxigênio no organismo é 94, 95. O meu é 87, 84. Eu uso aquele tubo de oxigênio. Por esse motivo devo receber o LOAS [Lei Orgânica da Assistência Social]", afirma.

A situação de Maria é parecida com a de Alexssandra Vitória, de 41 anos, dois deles nas filas das distribuições gratuitas de marmitas no centro de São Paulo. Também sem emprego, ela vive em uma ocupação na mesma região com uma filha de 11 anos, com divide as marmitas.

"Se não fosse esse projeto era complicado, porque a pessoa às vezes mora num quarto de pensão, numa ocupação, até tem um quartinho, mas não tem uma mistura, não tem tempero ou não tem dinheiro pra comprar gás, que está caro. Se eu não vier aqui, falta mistura, tem que comer arroz com feijão", afirma Alexssandra.


Há uma estimativa que diariamente entre 50 e 100 pessoas ficam sem marmita / Pedro Stropasolas

Não fossem as doações, Reinaldo Costa Martins, de 44 anos também não teria o que comer. Desempregado, ele está há cinco meses em situação de rua. "Tem muita gente boa que ajuda nós. Não fosse a doação nós estávamos passando fome."

:: Não basta reconhecer que há fome, é preciso apontar as causas ::

Depois da distribuição das marmitas, ainda aparecem algumas pessoas pedindo por comida, mas que se deparam com as caixas de isopor já vazias. Segundo Daiane Meurer, gerente do Projeto Cozinha Escola Pop Rua, há uma estimativa que diariamente entre 50 e 100 pessoas ficam sem refeição.

"De final de semana acaba sendo mais tranquilo, porque tem ações sociais de final de semana. Durante a semana, não tem esse tempo, a sociedade em si não consegue parar seu trabalho para atender. Então, durante semana, falta marmita", afirma. "No final, a gente tenta destinar para outro lugar que possa ter ainda, mas falta bastante."

Diante das declarações inverídicas de Jair Bolsonaro de que não há fome no Brasil, Daiane Meurer diz: "Existe, a fome está aqui, é só olhar para essa fila: a quantidade de idosos que estão aqui, a quantidade de mães-solo, de crianças que passam por aqui. Se a invisibilidade está presente na sua vida, é porque você está cego. A fome está nítida em São Paulo inteiro, no Brasil inteiro."

Fome nacionalizada

Dados do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, produzido entre novembro de 2021 e abril de 2022, mostram que 58,7% da população está em algum nível de insegurança alimentar: 28% vive em condição de insegurança alimentar leve; 15,2% em situação moderada; e 15,5% em situação grave.

A primeira se caracteriza pela "preocupação ou incerteza em relação ao acesso aos alimentos no futuro" e pela "qualidade inadequada dos alimentos resultante de estratégias que visam não comprometer a quantidade de alimentos".

A insegurança alimentar moderada é definida pela "redução quantitativa de alimentos e/ou ruptura nos padrões de alimentação resultante de falta de alimentos". Por fim, a forma grave da insegurança alimentar se caracteriza pela fome e pela ausência de alimentação por "falta de dinheiro para comprar alimentos" ou por "fazer apenas uma refeição ao dia, ou ficar o dia inteiro sem comer".

Isso significa que aproximadamente 33 milhões de pessoas passam fome no Brasil hoje. O cenário é pior nas regiões Norte e Nordeste, mas também deixa a desejar no restante do país.

"As regiões Norte e Nordeste continuam sendo as regiões com uma severidade da fome e da pobreza muito maior do que as demais. Mas a fome, que historicamente era um fenômeno que marcava o Nordeste e o Norte, nas mãos de Bolsonaro, acabou sendo nacionalizada", afirma Tereza Campello, ex-ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome do governo de Dilma Rousseff (PT) e professora visitante da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP).

:: A fome não voltou, sempre esteve entre nós, mas agora grita pela boca das mulheres ::

Na região Norte, 25,7% da população está em situação de insegurança alimentar grave, sendo o estado do Amapá que concentra a maior proporção: 32%. Ambos os percentuais estão bem acima da média nacional de 15,5%. No Nordeste, são 21% em situação de fome. Lá, Alagoas tem a maior proporção de pessoas nessa condição: 36,7%.

No Sudeste, o índice médio é menor (13,1%) do que o nacional, mas a taxa do Rio de Janeiro chega a 15,9%. Das outras regiões, somente o Mato Grosso, na região Centro-Oeste, ultrapassa a média nacional, com 17,7%.

"Quem está na rua em São Paulo, debaixo dos viadutos, não são imigrantes nordestinos como a gente tinha na década de setenta, oitenta, noventa. São paulistanos que foram despejados de suas casas, que empobreceram, que estão endividados, que não têm mais condições de sobreviver", afirma Campello diante dos dados.

De acordo com o presidente do Movimento Estadual da População em Situação de Rua de São Paulo, Robson Mendonça, estima-se que 63.800 pessoas estejam em situação de rua somente no estado de São Paulo, segundo dados de janeiro deste ano. 

Daiane Meurer afirma que o perfil desta população mudou muito durante a pandemia de covid-19. "No começo da pandemia, eram mais homens entre 30 e 35 anos e que estavam em situação de rua por situações mais peculiares. Hoje tem um aumento de idosos, crianças, mães-solo e LGBTQIA+ que estão em situações mais vulneráveis", diz.

:: Internação de bebês por desnutrição no Brasil é a maior em mais de 10 anos, diz Fiocruz ::

Outro dado que corrobora com a percepção da mudança de perfil das pessoas em situação de vulnerabilidade social é o aumento de hospitalizações por desnutrição em menores de um ano. Dados do Observa Criança, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), mostram que, em 2021, o Brasil registrou em média oito internações por dia por desnutrição, sequelas da desnutrição e deficiências nutricionais em bebês menores de um ano. É o maior número absoluto em 14 anos. No total, foram 2.939 hospitalizações.

Governo Bolsonaro 

Segundo Tereza Campello, o governo Bolsonaro desmontou o conjunto das frentes estratégicas que garantiram a retirada do Brasil do Mapa Fome, ao qual voltou em julho deste ano, conforme o relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Dados do documento mostram que 61 milhões de brasileiros encontraram dificuldade de se alimentar.

A ex-ministra também destaca que o governo inviabilizou qualquer possibilidade de melhorias na renda da população, um dos principais fatores que contribuem para o aumento da fome, e a desorganizou todas as cadeias de estímulo à agricultura familiar. "A fome não é só renda. Também tem o lado da oferta de alimentos e ofertas de alimentos de qualidade, que eram proporcionados pela agricultura familiar e camponesa", afirma Campello.

"Esse governo não tem compromisso nenhum com a agenda social. Isso não está no horizonte do governo. Segundo o Bolsonaro, não tem fome no Brasil, o que é até contraintuitivo. Basta sair nas ruas e ver as pessoas pedindo comida, os dados pulam na nossa frente", diz.

Edição: Nicolau Soares