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Vinte dias, cinco notas e três lições

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Lula mantém o favoritismo, mas a diferença se estreita. Ela já foi 10% maior - Flickr Lula/Flickr Bolsonaro
Subestimar o bolsonarismo tem sido o maior erro da esquerda brasileira

Experiência é o que fica depois de se perder tudo o resto.

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A fraqueza da força é acreditar apenas na força. 

(Sabedoria popular portuguesa)

1. Faltam vinte dias para o primeiro turno. A história das eleições, desde o fim da ditadura, nos deixou três lições centrais. A experiência é preciosa. A primeira é que jogar parado não é uma tática ajuizada em uma luta implacável. Lula “paz e amor” tem sido interpretado como uma habilidade acrobática estilo “matrix”: ignorar os ataques, não responder as acusações, contornar polêmicas, evitar críticas. Há até quem considere o ápice da “sabidologia”, mas não é. O que, por exemplo, as eleições de 2006 demonstraram foi que a recusa de Lula de participar de debates foi uma das razões principais que explicam porque a vitória não veio no primeiro turno. Lula mantém o favoritismo, mas a diferença se estreita. Ela já foi 10% maior. Lula não caiu na média das pesquisas, mas Bolsonaro vem subindo, lenta, mas ininterruptamente. Quando analisamos as variáveis desagregadas, comparando variações nos diferentes indicadores por estratos de renda, idade, gênero, raça, região, religião e outros ocorreram oscilações significativas. A ilusão de que as eleições estão decididas conforta corações ansiosos, nervosos e inquietos, mas é muito perigosa.

2. A segunda lição é que, como deveríamos ter aprendido em 2018, a linha “mais do mesmo” ou “romantização do passado” desconsidera que o Brasil ainda é uma nação de jovens e, portanto, o que aconteceu há dez, quinze ou vinte anos atrás é história, e terá menor impacto do que os compromissos com o futuro. Diante de um cenário distópico aterrorizador, precisamos de inspiração utópica mobilizadora. Além disso, ainda que o PT tenha vencido quatro eleições seguidas, e que os governos de Lula e Dilma Rousseff tenham sido, incomparavelmente, melhores que os mandatos de Michel Temer e Bolsonaro, não foram poucos os erros cometidos. 

3. A terceira lição é que, para ganhar as eleições, o “giro ao centro” não é o melhor caminho para atrair votos dos que simpatizam com as candidaturas da “terceira via”, como deveríamos ter concluído pelo desenlace de 2014, quando Dilma Rousseff venceu, mas por muito pouco, e somente depois que abraçou a tática “Dilma coração valente”. A razão é que credibilidade não se improvisa, fantasia ou dissimula. Honestidade conta e muito. Pela mesma razão que ninguém, seriamente, acredita que Bolsonaro, um fascista nostálgico da ditadura militar, tenha algum compromisso com a democracia, tampouco, acredita que Lula não seja uma liderança popular de esquerda. Moderado e reformista, mas de esquerda.   

4. Eleições são decididas por dois fatores chaves: simpatia ou confiança e rejeição ou repulsa. Em eleições “normais” a confiança prevalece no primeiro turno, e a rejeição no segundo. Mas estas eleições não são normais. O contexto é tão grave, em função da presença no governo de uma coalizão de extrema-direita liderada por uma candidatura neofascista, que o “ambiente” de segundo turno foi antecipado para o primeiro. A altíssima taxa de rejeição a Bolsonaro, em especial, entre as mulheres, os mais pobres, os negros e nordestinos é o fator chave que abre caminho para a vitória. Ela se explica pela experiência dos últimos três anos e meio. Pesam muitos fatores como sempre, diante de processos políticos complexos, mas a tragédia do impacto da pandemia parece ter sido o maior. A vitória é possível, mas exige disposição de luta, motivação dos ativistas, campanha nas ruas, organização de comitês, portanto, tem que ser conquistada.  

5. Subestimar o bolsonarismo tem sido o maior erro da esquerda brasileira. A estratégia de Bolsonaro é a mobilização de seu movimento político para construir um “arrastão” social e político que garanta a sua presença no segundo turno. A sua fraqueza é se apoiar na ideia de que a força pode vencer disseminando o medo, por isso, mantém o discurso da intimidação golpista. O contexto eleitoral é de uma elevação crescente da tensão, exasperação e medo. O assassinato de Benedito Cardoso dos Santos no Mato Grosso foi mais um terrível episódio que confirma o perigo que nos ameaça com a radicalização dos neofascistas. Bolsonaro já deixou claro que não aceitará perder as eleições. Esse foi o sentido da convocação do sete de setembro, apresentado como a hora da batalha final ou do último combate, dos discursos “mussolinianos” em Brasília e Copacabana, e dos horrorosos vídeos que circulam nas redes sociais. Armas para “cidadãos de bem” em defesa da “liberdade” para exterminar a esquerda, e para esmagar a ameaça “comunista”. Vitória eleitoral ou denúncia de fraude eleitoral. O golpismo retórico tem subentendido nas entrelinhas a chantagem da guerra civil. Têm que ser derrotados agora e já, embora seja difícil. Ainda é possível, no primeiro turno. 

*Valerio Arcary é professor titular no Instituto Federal de São Paulo (IFSP), militante da Resistência/Psol e autor de O Martelo da história, entre outros livros. Leia outras colunas.

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Glauco Faria