Tensão

Pelosi em Taiwan? China responde com exercício militar a 120 km da província

Voo de congressista em avião militar no espaço aéreo chinês, do qual Taiwan faz parte, poderia ser lido como invasão

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Nancy Pelosi teria desembarcado em Honolulu, Havaí, por volta das 11 da manhã. Por se tratar de um avião militar, o sistema ADS-B do voo foi desativado, e seu histórico de navegação apagado - Gage Skidmore/Wikimedia Commons

Um avião estadunidense modelo Boeing C-40C, denominação militar do 747, foi flagrado saindo dos EUA na madrugada deste sábado. Rumando oeste, especula-se que a presidente da câmara dos deputados dos EUA, Nancy Pelosi, esteja a bordo do avião. Pelosi está envolta em polêmica desde abril deste ano, quando a televisão japonesa Fuji News Network anunciou uma possível viagem da parlamentar à província chinesa de Taiwan.

Um voo de Nancy Pelosi a bordo de um avião militar para dentro do espaço aéreo chinês, do qual Taiwan faz parte, poderia ser interpretado como uma invasão. Isso abriria espaço para uma reação chinesa, que já emitiu sua preocupação com a escalada do conflito por inúmeras vezes.

Nesta sexta, o porta-voz do MRE chinês, Zhao Lijian, informou em coletiva que se os EUA ‘cruzarem a linha vermelha’, serão rebatidos por ‘contramedidas resolutas’.

O porta-voz disse ainda que devem arcar com a responsabilidade por essa ação provocativa que segue na contramão da conversa entre os presidentes da China e dos EUA, Xi Jinping e Joe Biden, realizada na última quinta. Na ligação, o presidente Xi chegou a dar um ultimato afirmando ao seu homólogo estadunidense que “quem brinca com fogo acaba se queimando”.

Não por coincidência, a marinha chinesa está realizando um exercício militar como artilharia de fogo real nas águas de Pingtan, na província de Fujian, cerca de 120km da costa de Taiwan.

Também circulam imagens nas redes sociais de colunas de tanques de guerra sendo transportadas em trens supostamente para a costa de Fujian. No entanto, não é possível afirmar com precisão o destino dos tanques uma vez que a China comemora o aniversário de fundação da sua armada em Primeiro de Agosto, próxima segunda-feira, e são esperadas grandes paradas militares no país.

Chinese armor headed to Fuijan (across from Taiwan) pic.twitter.com/nFHazcxT60

— Pro-Russian Guy 5% (Z) 🇷🇺 (@thrussophile2) July 29, 2022

O clima na região está no maior ponto de tensão dos últimos anos. Além do exercício do exército chinês, a frota de ataque do porta-aviões estadunidense de capacidade nuclear, USS Ronald Reagan, está estacionada no Ásia-Pacífico. A marinha de Taiwan também realiza o maior exercício militar que se tem notícia, com o objetivo de “encontrar possíveis falhas na defesa”, segundo a mídia local.

Nancy Pelosi teria desembarcado em Honolulu, Havaí, por volta das 11 da manhã. Por se tratar de um avião militar, o sistema ADS-B do voo foi desativado, e seu histórico de navegação apagado. O roteiro de Pelosi não foi divulgado e não se sabe a congressista continuará com a missão considerada suicida por analistas militares.

Um resumo da questão de Taiwan

Taiwan é governado pelo antigo regime chinês da República da China (ROC na sigla em inglês). Em 1949, quando Mao Zedong anunciou a fundação da República Popular da China (PRC na sigla em inglês) em consequência da vitória comunista na Guerra Civil, os partidários do derrotado Jiang Jieshi (Chiang Kai-shek) se isolaram na província de Taiwan. A partir de 1973, a ONU passou a reconhecer o governo da PRC como o único legítimo de toda China, e o regime da ROC como um regime rebelde.

Segundo os acordos estabelecidos entre China e EUA, oficialmente os EUA concordam com a política chinesa de Uma Só China, reconhecendo a soberania chinesa sobre Taiwan. Mas no bojo de sua política dependente da guerra, os americanos são os principais financiadores do governo rebelde de Taiwan, armando e treinando as tropas da província.

Em março deste ano, em uma tentativa de esfriar as tensões, os presidentes da China e dos EUA, Xi Jinping e Joe Biden, realizaram uma conversa telefônica na qual Biden reafirmou o compromisso americano com a política de Uma Só China e disse não apoiar a ‘independência de Taiwan’. Essas palavras, no entanto, entram em contradição com a prática dúbia de Biden sobre a questão, que afirmou em maio que estaria disposto a usar a força para defender Taiwan de uma possível ‘agressão chinesa’.

A conversa de Biden e Xi no telefone ocorreu semanas antes de uma visita bipartidária de legisladores estadunidenses a Taiwan, que voltou a agravar as relações entre os dois países. Na ocasião, uma visita de Pelosi começou a ser anunciada após a declaração do senador democrata Bob Menendez de ‘abandonar Taiwan seria abandonar a democracia e a liberdade’.

No último mês de julho, Biden e Xi voltaram a conversar no telefone, seguindo o mesmo padrão duplo por parte do presidente estadunidense.

A tensão envolve outros países da Ásia-Pacífico, como Austrália e Japão. Austrália compõe a aliança militar AUKUS, junto com EUA e Reino Unido, e tem se tornado o maior parceiro militar do Japão depois dos EUA.

O Japão, por sua vez, está em uma escalada militarista que sem precedentes do pós-segunda guerra. Em junho deste ano, o primeiro-ministro Fumio Kishida anunciou que o orçamento militar será fixado em 2% do PIB, o que fará saltar da oitava para a terceira posição entre os maiores gastos militares do planeta.

Com o assassinato de Shinzo Abe e a conquista de ampla maioria por parte dos aliados do partido de Kishida em julho de 2022, especula-se que muito em breve o Japão irá finalmente remover o status pacifista da sua constituição. A mudança constitucional já é almejada há décadas por membros da seita restauracionista imperial, Nippon Kaigi, da qual proeminentes figuras da política japonesa fazem parte, como Shinzo Abe e Fumio Kishida.