Futuro nas urnas

Voto jovem será decisivo na eleição da Colômbia

Candidato da esquerda, Gustavo Petro, é favorito neste domingo e juventude lidera a rejeição ao atual governo

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Colômbia vai às urnas para eleger novo presidente
Colômbia vai às urnas para eleger novo presidente - Juan Barreto / AFP

Com o maior número de votantes da história, a juventude terá peso importante para decidir se a Colômbia, pela primeira vez, dará uma guinada à esquerda, elegendo Gustavo Petro presidente na eleição deste domingo (29). Dos quase 39 milhões de colombianos aptos a votar, cerca de 9 milhões têm 28 anos ou menos.

A expectativa de analistas políticos é que a participação dos jovens alcance números recordes, mesmo o voto no país latino sendo impresso e facultativo. Historicamente, a Colômbia chega a atingir uma abstenção de 50%. Mas é possível que o quórum aumente dado o desejo de mudança expresso nas pesquisas de opinião. Em especial contra o atual presidente, Iván Duque (Centro Democrático), que deixa o cargo com 67% de reprovação. Há pesquisas que mostram ainda que 85% da população consideram que Colômbia está no caminho errado.

Nos últimos anos, os jovens também lideraram protestos nacionais por sentirem na pela o fracasso do modelo neoliberal. Agora, a maioria aposta na aliança de centro-esquerda que defende um desenvolvimento econômico sustentável, combate à fome, a consolidação do acordo de paz, entre outros direitos sociais. Uma pesquisa da empresa Invamer, deste mês de maio, mostrou que 53% dos eleitores entre 18 a 24 anos planejam votar em Petro. Assim como 45% daqueles com 25 a 34 anos. No geral, Petro tinha 41% na semana passada, mas pesquisas privadas (de divulgação agora proibida) apontam para um crescimento do candidato do Pacto Histórico.

Os jovens estão entre os mais atingidos pelo desemprego, a precarização do trabalho, a falta de oportunidades de estudo e o desalento. Os indicadores apontam que 30% dos jovens compõem a chamada geração ni-ni (nem-nem em espanhol). Ou seja, os que nem estudam, nem trabalham.

Peso do voto anticorrupção

A juventude também é atraída pela companheira de chapa de Gustavo Petro, a advogada Francia Márquez. Ativista ambiental e ex-representante do Conselho Nacional pela Paz, Francia pode ser a primeira mulher negra vice-presidenta da Colômbia. “A geração TikTok que está muito ligada à Francia, muito ligada ao Petro, será decisiva”, garante o analista político Fernando Posada em entrevista ao The New York Times.

O cenário eleitoral também mostra que o voto anticorrupção não será desprezível no pleito colombiano. Um levantamento da empresa Atlas Intel, de 20 de maio, indica que a corrupção é a grande preocupação de 66% dos colombianos. Escândalos de corrupção levaram, inclusive, o grupo político de Iván Duque e do ex-presidente Álvaro Uribe a uma grande derrota nas eleições legislativas – Câmara e Senado – em março.

A pobreza e a falta de oportunidades – num país há décadas dominado pelo neoliberalismo e a submissão aos Estados Unidos – também estão entre os problemas apontados pelos colombianos. Todas as seis candidaturas inscritas para participar da corrida presidencial exploram a pauta. Mas tem sido mais central nas outras duas coalizões à direita que disputam uma vaga num possível segundo turno contra Petro.

Nesse caso, Federico Gutiérrez (Equipe pela Colômbia, chapa do presidente Duque), que tem cerca de 27% da preferência do eleitorado, e Rodolfo Hernández da coalizão (Liga de Governantes Anticorrupção, também de direita), com 21%. 

Hernández já se disse “seguidor de Adolf Hitler”, e vem crescendo na disputa. Há dois meses tinha 9%. Acabou sendo “adotado” por parte da mídia e da elite como candidato como mais potencial para enfrentar Petro em eventual segundo turno. Teria um falso rótulo de outsider (já que é político experiente) para se contrapor à rejeição de Duque e ao candidato do uribismo (espécie de bolsonarismo colombiano), Gutiérrez.

Rejeição ao ubirismo

Em uma entrevista ao jornal O Globo, o pesquisador do Centro de Estudos Políticos e Sociais (Cieps), Sergio Garcia, disse temer o crescimento do populista. Isso porque o momento eleitoral da Colômbia também padece de desconfiança com a política, e desalento com a democracia. “Estamos falando de um empresário que faz política como faz negócios, por isso alguns o chamam de Trump colombiano. Hernández é conservador e eu diria que pode ter afinidades com Hitler, mas é essencialmente um ignorante”, declarou o especialista em América Latina. 

Já a chapa de Gutiérrez conta com apoio da maior parte das legendas de direita tradicionais da Colômbia. Ex-prefeito da cidade de Medellin, ele é também associado ao uribismo, corrente fundada pelo ex-presidente Álvaro Uribe Vélez, o representante da elite agropecuária colombiana que governou o país de 2002 a 2010. Uribe fundou o partido Centro Democrático, legenda do atual presidente, que lançou Gutiérrez. O chamado uribismo, inclusive, foi o principal derrotado nas eleições legislativas do país, em março. As mesmas que garantiram, por outro lado, o Pacto Histórico esquerdista como a força mais votada.

O ex-presidente também é associado diretamente à violência do neoliberalismo e dos grupos paramilitares que dominam a Colômbia. Além de ser rejeitado por 37,9% dos colombianos, segundo pesquisa da empresa Atlas. O que também recai sobre a chapa de Gutiérrez, que por sua vez apostando no medo que chama de “ameaça do populismo de esquerda” que seria representado pela candidatura de Gustavo Petro. 

Ameaças empresariais


Outdoor anti-Petro em Cali / Marcio Monzane / UNI Americas

“Aqui os únicos que não são bem vindos são os corruptos e violentos. Devemos entender que há 20 milhões de colombianos que passam fome, é urgente realizar várias mudanças. Mas não podemos dar um salto ao vazio, como na Nicarágua e na Venezuela”, disse Gutiérrez durante o ato final de campanha, conforme reportagem do Brasil de Fato.

O tom é o mesmo adotado por empresários que fazem campanhas contra o voto no candidato de esquerda. Um outdoor, instalado na cidade de Cali, dizia que “os venezuelanos também queriam uma mudança, e tiveram que mudar de país. Qualquer coisa menos ele”, exigia em referência a Petro. Empresários também foram flagrados ameaçando demitir seus trabalhadores para impedir o voto na chapa Pacto Histórico. Em um dos casos, um gerente de uma empresa de couro desenhou para seus funcionários um cenário catastrófico no caso de Petro ser presidente, segundo informações do jornal El País​​. 

As denúncias foram confirmadas pela Missão de Observação Eleitoral do país. Ao todo, 27 grupos acompanham o pleito colombiano, com cerca de 150 observadores internacionais. A maior supervisão eleitoral da história do país, de acordo com o chefe do Registro Civil Nacional, Alexander Vega. Mas nem por isso a votação no domingo segue menos ameaçada.