SAÚDE

Dezembro vermelho: o combate à Aids só é possível com o SUS fortalecido, aponta especialista

Acesso à saúde pública é crucial para tratamento do HIV, especialmente para a setores vulnerabilizados da sociedade

Brasil de Fato | Recife (PE) |
61,9% das pessoas que morrem em decorrência da Aids no Brasil são negras - Divulgação

Em 1989, quando soube que seu parceiro morreu, o recifense Wladimir Reis viveu dois traumas. Foram apenas três dias entre o diagnóstico de pneumonia do companheiro, inicialmente com alta chance de recuperação, até o óbito. No enterro, o jovem de 28 anos descobriu que a causa foi a Aids, doença que ataca o sistema imunológico e, à época, o pouco que se sabia era cercado de estigma e preconceito. Os primeiros estudos científicos da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, a Aids, haviam sido publicados somente oito anos anos antes.


Para Wladimir Reis, integrante da ONG GTP+, o HIV precisa ser encarado também a partir da questão social / Arquivo Pessoal

Os dias que se seguiram na vida de Wladimir depois da morte do namorado foram marcados por incertezas - se tinha ou não o vírus HIV, se iria ou não sobreviver - e pela solidão. “Eu ia no Parque da Jaqueira [na Zona Norte do Recife], e passava a tarde chorando lá, porque via que todas as pessoas que conhecia na época e diziam ser meus amigos não estavam mais presentes. Uma delas chegou a me perguntar: Quando você vai morrer? Eu não sabia o que responder”, relembra, aos 60 anos, em entrevista concedida ao Brasil de Fato nesta semana. “Desde esse tempo, eu conheço muito a discriminação. Essa foi uma das fases mais difíceis da minha vida.”

Depois de uma série de exames que não acusaram a presença do vírus, o resultado da sorologia positiva só saiu em 1990, quando procurou o Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no Recife, onde até hoje é atendido. Wladimir era um dos cerca de seis mil brasileiros e brasileiras que sabidamente viviam com o HIV naquele ano. Apesar do tratamento hospitalar humanizado, o sofrimento psíquico era grande. “Naquele momento, eu andava com o resultado positivo nas mãos. Era um atestado de óbito em vida.”

Em 2021, no ano em que a luta contra a Aids completa quatro décadas, ele encara um panorama diferente. Embora o estigma ainda exista e haja um caminho longo para reduzir o número de mortes, avanços inquestionáveis foram feitos. Há muito se sabe que é possível viver uma vida saudável com o vírus HIV; a ciência evoluiu para tornar o tratamento mais eficaz e com menos efeitos colaterais imediatos; e, com muita luta, a mobilização social garantiu conquistas de direitos para esse público.

Hoje coordenador do Grupo de Trabalhos em Prevenção Posithivo (GTP+), ONG que trabalha com pessoas vivendo com HIV em Pernambuco  e presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos (CEDH) de Pernambuco, Wladimir Reis testemunhou todo o desenvolvimento da política pública de Aids no Brasil. 

Essa política, lembra ele, foi alcançada a partir da estruturação do Sistema Único de Saúde (SUS). “A política de Aids acolhida no sistema de saúde foi adentrando quando o SUS começa a ser implementado, no final da década de 80”, afirma. É por isso que neste Dezembro Vermelho - mês voltado para a conscientização do combate da aids e o HIV -, a defesa da saúde pública também entra em pauta. 

“Entendemos os desafios que ainda existem no SUS, mas [o caminho] não é eliminando a maior parte do direito à saúde. A gente fica preocupado porque o interesse do Governo Federal hoje é de vender a saúde. É o interesse dos hospitais particulares, que cobram horrores para ter atendimento, dos planos de saúde, em que você gasta muito dinheiro e, quando precisa, tem uma cláusula que impede o atendimento de uma patologia grave. Está aí a pandemia da covid-19, que mostrou a importância do SUS, que, mesmo com a retirada de recursos durante todos os anos, se manteve capaz de vacinar praticamente toda a população brasileira, dos mais ricos aos mais pobres”, defende Wladimir.

Desigualdade social e HIV: população negra morre mais

A antropóloga Jô Menezes, coordenadora de Programas e Projetos da Gestos - organização filantrópica atuante no Recife -, endossa a importância do sistema público de saúde no enfrentamento de 40 anos à aids e ao HIV.  Se para o SUS todas as vidas importam, diz ela, é preciso fortalecer o sistema para que chegue às populações que mais precisam e que muitas vezes parecem ser esquecidas pelo Estado.

“As pessoas neste Dezembro Vermelho precisam entender que ainda se morre de Aids no Brasil exatamente pelas desigualdades que a gente tem. Muitas vezes, as pessoas deixam de tomar medicação pelo preconceito ou por estar vivendo um momento de sofrimento psíquico, mas também pelas questões econômicas”, aponta ela, contando exemplos que viu acontecerem no Recife.

“Muita gente pensa em parar de tomar medicação porque não tem o que comer. ‘Eu vou tomar essa medicação para continuar a viver dessa maneira? Não tenho acesso a meus direitos, não tenho trabalho, meu benefício foi cortado, fui desaposentado’. Existem pessoas que tinham aposentadorias há muito tempo, envelheceram, foram desaposentadas e não têm uma chance no mercado de trabalho”, revela.

A desigualdade está posta em números. O Boletim Epidemiológico de 2021 do Ministério da Saúde, publicado nessa quarta-feira (1º), retrata o peso do racismo estrutural e da vulnerabilidade de determinadas populações. “Quando analisados os casos de Aids nos últimos dez anos e a distribuição dos indivíduos pelo quesito raça/cor, observou-se queda de 9,8 pontos percentuais na proporção de casos entre pessoas brancas. No mesmo período, houve aumento de 12,9 pontos percentuais na proporção de casos entre as pessoas negras”, cita um trecho do documento. 

Em 2020, a maior taxa de óbitos foi entre os negros: 61,9%, sendo 47% em pardos e 14,9% em pretos. Os brancos representaram 37,6% das mortes. O público que mais morreu de aids foram as negras (62,9% entre as mulheres). “Realizando uma comparação entre os anos de 2010 e 2020, verificou-se queda de 10,6 pontos percentuais na proporção de óbitos de pessoas brancas e crescimento de 10,4 pontos percentuais na proporção de óbitos de pessoas negras”, diz o boletim.

Jô Menezes contextualiza que questões como território, condição econômica, cor da pele, identidade de gênero e orientação sexual são fatores que vão influenciar na maneira que a pessoa com HIV será cuidada. “A gente vai ter recortes muito mais excludentes ou menos excludentes a partir desses lugares. Um homem heterossexual branco que se infecta é uma coisa. Uma mulher trans preta que mora na periferia é outra história, outra vivência. Porque é uma soma de vulnerabilizações que, de fato, trazem muitas preocupações para a gente e muito sofrimento mental para quem vive essa realidade”, comenta.

A antropóloga ainda destaca a ocorrência da transmissão vertical do HIV no Estado como indicador de desigualdade. “É uma coisa tão triste saber que uma pessoa que tenha um pré-natal com assistência bacana, usar medicação e o filho nascer sem HIV e ver bebês nascerem com HIV. Dá um desespero enorme, porque dá para prevenir, mas não acontece porque tem falhas para atender pessoas que estão em situação de vulnerabilidade muito grande”, argumenta.

Políticas Públicas

O Boletim Epidemiológico mais recente mostrou que novos casos de Aids caíram 20,7% entre 2019 e 2020. Há dois anos, foram registradas 37.731 notificações, enquanto, no ano passado, foram observadas 29.917. Com isso, o Brasil completa sete anos de queda no número de casos da doença desde 2013.

Pernambuco segue a mesma tendência. De acordo com os dados dos últimos três anos coletados até 1º de novembro de 2021 e divulgados pela Secretaria Estadual de Saúde (SES), os óbitos e as confirmações de aids vêm diminuindo desde 2018. Já as confirmações de HIV apresentaram um aumento em 2019, mas voltaram a cair a partir de 2020. 

Segundo o Ministério da Saúde, há 694 mil pessoas no País em tratamento para a doença, das quais 45 mil iniciaram a terapia antirretroviral só em 2021. A pasta informou que o tratamento já chega a 81% das pessoas diagnosticadas com HIV em todo o país. Desse total, 95% já atingiram carga viral suprimida e não transmitem o vírus por via sexual, ultrapassando a meta de 90% das Nações Unidas.

Para Jô Menezes, os dados refletem a realidade, uma vez que “o movimento social lutou muito para que as pessoas tivessem acesso à medicação no SUS” e os tratamentos evoluíram. Mesmo assim, mortes continuam acontecendo e políticas públicas devem ser aperfeiçoadas para estancar a epidemia.

Em primeiro lugar, a coordenadora critica a falta de campanhas contínuas, fora do Dezembro Vermelho, de conscientização sobre o HIV e que incentivem a prevenção. “A campanha do Governo Bolsonaro em 2019 foi bem ruim. era direcionada para jovens, mas parecia que a gente estava no começo da epidemia e que não tinha informações. Só trazia medo e só reforçava o estigma e o preconceito”, fala. Depois dessa, o Ministério da Saúde só lançou outra campanha na quarta-feira (1º), com o tema “Prevenir é sempre a melhor escolha”.


Imagem da campanha do Governo Bolsonaro em 2019 de prevenção à AIDS / Divulgação

A nível municipal, Jô levanta a escassez de Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA) em Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) e Aids no Recife. Na capital pernambucana, só há um CTA, localizado na Policlínica Gouveia de Barros, no bairro da Boa Vista, área central. Fora isso, só a Policlínica de Água Fria e algumas Unidades Básicas de Saúde (UBS) oferecem o exame. “A maioria dos casos de Aids em Pernambuco se concentra no Recife. Ter apenas um centro de testagem é algo muito ruim para nós. Se tivessem seis CTAs, facilitaria para quem não quer ir na UBS da comunidade porque tem medo que outras pessoas saibam”, opina.

Uma medida que os movimentos populares vêm tentando implementar há 15 anos é o passe-livre de transporte público para pessoas HIV positivas. “Tem mulheres que saíam de Olinda, desciam na avenida Conde da Boa Vista [na Boa Vista] e iam andando até a unidade de saúde porque não tinham dinheiro para duas passagens de ônibus, muito menos quatro”, conta. “A gente está tentando conseguir essa demanda antiga nossa com a Prefeitura do Recife a partir de um projeto de lei do vereador Ivan Moraes (PSOL).”

Testagem e Acolhimento

Realizar a testagem do HIV possibilita o diagnóstico precoce e a adesão mais rápida ao tratamento, o que contribui para reduzir a transmissão do vírus e proporciona maior qualidade de vida. .

Se você se descobriu com sorologia positiva, existem pontos de acolhimento para receber orientação e cuidado. Na rede municipal do Recife, há dois Serviços de Atenção Especializada (SAE) para as pessoas com HIV/aids e seus parceiros: a Policlínica Lessa de Andrade, na Madalena, com mais de dois mil pacientes cadastrados; e a Policlínica Gouveia de Barros, que tem capacidade para atender até 600 pessoas por mês.

Além dos serviços oferecido pelo sistema de saúde, as ONGs GTP+ e Gestos também oferecem aconselhamento em diversas áreas. Ambas fornecem assistência social, atendimento psicológico e assessoria jurídica para quem vive com o HIV/aids. 

 

Fonte: BdF Pernambuco

Edição: Vanessa Gonzaga