A Avenida das Indústrias, na região sul, periferia de Curitiba, é atravessada pela reportagem. O que se vê são apenas igrejas pentecostais, duas ou três concessionárias. Empresas, apenas três. Perto dali, o cenário segue o mesmo: antigas estruturas de fábricas sem destino. Em 9 de agosto de 2004, por exemplo, foi decretada a falência da Diamantina Fossassene, a segunda maior fábrica de botões da América Latina. Logo depois, os trabalhadores a ocuparam. Hoje, resta apenas a estrutura abandonada, velhos cães de guarda da massa falida e um campinho de futebol alugado para os finais de semana.
A cena é comum para quem anda pelos arredores da Cidade Industrial de Curitiba, uma das principais do país: barracões sem uso, indústrias abandonadas. O que levanta o debate sobre a queda da participação da indústria de transformação na economia do país. Esse movimento acontece desde os anos 1980 e se intensificou com a crise econômica mundial. É a chamada desindustrialização.
Principais motivos
O processo de desindustrialização brasileiro tem como motivo principal a política de privatizações dos governos, consolidada principalmente no período do governo Fernando Henrique Cardoso, de acordo com o analista político e escritor Wladimir Pomar. Assim como muitas empresas, compradas por grupos internacionais, deixaram o país e houve o aumento de exportações de capitais financeiros para os países centrais (EUA, Europa Central e Japão).
“A privatização permitiu que grande parte do parque industrial brasileiro fosse comprado e transferido para países de mão-de-obra mais barata. Um dos exemplos é o da indústria química”, compara Pomar.
Outros problemas causam a quebra ou a transferência da indústria nacional, segundo economistas: a administração que mantém alta a taxa de câmbio, o que prejudica as exportações de manufaturados. A taxa de juros e o atraso tecnológico para a competição são questões também importantes.
O problema é nacional, mas fica visível nos estados e cidades. O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) informa, por exemplo, que a participação da indústria na produção econômica foi maior em Curitiba até o ano de 2004, quando atingiu o seu melhor momento (24,2%) e desde então passou a decair e ser superado pela região metropolitana.
Dados nacionais
No Brasil, no geral, o estoque de empregos em anos recentes vem aumentando menos em comparação com outros setores. Em 2013, a indústria de transformação representava 16,9% do estoque de empregos total. Dez anos antes, em 2003, era de 18,1%.
Entre 2008 e 2011, enquanto os bancos cresceram 23,1%, a extração mineral cresceu 12,8% e o desempenho da indústria de transformação, por sua vez, caiu 5,7%, de acordo com o site Plataforma Política e Social.
Transição incompleta para setor de serviços
Da janela do seu escritório, a escritora canadense Naomi Klein descreveu o mesmo processo de desindustrialização no conhecido livro chamado “Sem Logo (No Logo, de 1999)”. A obra fala das regiões industriais abandonadas no seu país, o Canadá, em nome da migração para regiões com força de trabalho mais barata, caso das Filipinas, Ásia, América Central e México.
Porém, é fato que os países centrais conseguiram uma transição da indústria para o setor de serviços sem tantos impactos. No Brasil, ao contrário, a perda de empregos na indústria e o aumento do setor de serviços são marcados por precarização e empregos de péssima qualidade. De acordo com o Dieese (2009), a jornada de trabalho média no comércio chega a ultrapassar as 50 horas semanais.
“Normalmente os países que possuem renda per capita acima de 30 mil dólares (nações consideradas ricas) são aqueles que sofrem com o processo natural de desindustrialização resultante da dinâmica estrutural de suas economias, sem que isso reflita sobre o empobrecimento das suas populações. Pelo contrário, verifica-se o desenvolvimento do segmento de serviços, como setor dinâmico da economia, demandante de mão de obra especializada, de elevados salários, e gerador de alto valor agregado”, destaca Fabiano Camargo, economista do Dieese.
Exportação primária
A visão de Guilherme Delgado, economista aposentado do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), é de que o Brasil teve a mudança do modelo de inserção na economia mundial, o que se consolidou nos anos 2000.
Assim, de acordo com Delgado, a economia brasileira fortaleceu laços com o setor primário, agrícola e mineral, reforçando o papel de produzir matérias-primas sem valor agregado e importar os demais itens. O pesquisador concorda que o país passa por um processo de desindustrialização.
Ele afirma que o Brasil vive a perda da indústria desde os anos 1980. “Há um processo de primarização do comércio externo e desindustrialização, com perda significativa de participação no PIB, vem desde 1982 para cá, mas se intensificou. Desde 2008 e 2010 para cá se intensificou, com a crise econômica financeira e mundial”, defende.
Ausência do debate
Segue pendente o debate sobre um projeto de nação, industrial e estratégico para o Brasil. Wladimir Pomar complementa que essa lacuna existe na reflexão da esquerda e da universidade. “Em geral, tem faltado à esquerda e aos setores progressistas o debate sobre um projeto que supere o atraso, a subordinação e a dependência econômica, assim como as desigualdades sociais que caracterizam o Brasil em pleno século 21”, afirma Pomar.
Ainda de acordo com Pomar, os investimentos estrangeiros poderiam ser úteis se o Estado brasileiro tivesse um projeto de industrialização e desenvolvimento econômico e social, de forma que “os regulasse e direcionasse [os investimentos] para a ampliação dos setores produtivos. No entanto, tais investimentos estão direcionados principalmente para a especulação financeira”, afirma.
Barracão de abastecimento está abandonado
Ainda na região sul periférica de Curitiba, um enorme barracão da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) está hoje abandonado, sinalizando o pouco aproveitamento de espaços ociosos para receber produtos da agricultura familiar e da produção do campo.
Roberto Baggio, coordenador do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), afirma que o local deveria ser reaproveitado para distribuição de alimentos vindos da agricultura familiar. Mas está parado há anos. “Seria uma boa ideia para o abastecimento popular em Curitiba. Queremos propor isso, em intermediação entre município –, é uma ideia”, afirma.
Edição: Ednubia Ghisi e José Eduardo Bernardes
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